Tratamento experimental reduz colesterol por pelo menos um ano
O colesterol elevado permanece entre os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, responsáveis pela maior parcela das mortes registradas em escala mundial.
Uma única intervenção genética poderá transformar futuramente o controle de alterações graves no colesterol, hoje dependente de medicamentos utilizados diariamente por longos períodos. A terapia experimental da CRISPR Therapeutics atua sobre células do fígado e desativa um gene associado à permanência excessiva de LDL e triglicérides no organismo. Em pacientes que receberam a maior dose, a enzima relacionada ao ANGPTL3 caiu quase 80%, enquanto os dois lipídios apresentaram reduções próximas de 50%.
Edição única busca superar tratamentos contínuos
A possibilidade de controlar níveis elevados de colesterol com uma única intervenção abre uma nova frente para pessoas que dependem de medicamentos por longos períodos.
Atualmente, as estatinas fazem parte da terapia habitual contra o LDL elevado, mas falhas na rotina diária podem limitar os benefícios clínicos ao longo dos anos.
A solução investigada pela CRISPR Therapeutics pretende substituir a administração frequente por uma alteração permanente no fígado, órgão essencial para o metabolismo das gorduras corporais.
O alvo escolhido foi o ANGPTL3, gene ligado à produção de uma enzima que reduz a capacidade natural do organismo para processar LDL e triglicérides.
A escolha desse ponto biológico surgiu após cientistas identificarem, em uma comunidade longeva da Itália, pessoas nascidas com uma versão inativa do ANGPTL3.
Mesmo sem tratamento específico, esses indivíduos mantinham baixas concentrações dos dois lipídios e apresentavam poucos casos de doença cardíaca ao longo da vida.
Em vez de acrescentar uma função ao organismo, o procedimento desativa parte desse mecanismo e procura reproduzir a proteção associada à variação genética natural.
Caso pesquisas maiores confirmem segurança e eficácia, a estratégia poderá beneficiar principalmente pacientes com risco hereditário elevado ou dificuldades para manter terapias contínuas.
Primeiros pacientes preservam resposta após doze meses
Os dados publicados no New England Journal of Medicine correspondem ao acompanhamento de 15 pacientes com alterações severas nos níveis de colesterol e triglicérides.
Após uma única aplicação, alguns participantes apresentaram diminuição de até 50% nesses lipídios, resposta que permaneceu detectável por pelo menos doze meses.
No grupo que recebeu a dose mais alta, a quantidade da enzima associada ao ANGPTL3 recuou quase 80%, acompanhada por quedas lipídicas próximas de 50%.
A persistência do resultado indica que a renovação natural do tecido hepático não eliminou a mudança inserida pelo CRISPR nas células alcançadas inicialmente.
Durante o período observado, os pesquisadores não relataram reações adversas importantes, resultado compatível com a condição de pessoas que possuem essa mutação desde o nascimento.
O alcance do trabalho ainda permanece restrito, pois a amostra reuniu somente 15 pessoas e concentrou-se em quadros particularmente graves de alterações lipídicas.
A etapa seguinte já começou e manterá o foco em casos severos, perfil que abrange aproximadamente dois a três milhões de pessoas nos Estados Unidos.
Novos resultados são esperados até o fim deste ano, e uma resposta favorável poderá abrir testes posteriores para pacientes com níveis menos acentuados de lipídios.
Até agora, a pesquisa sustenta somente a duração mínima de um ano, sem evidências suficientes para assegurar controle permanente ao longo de toda a vida.
A relevância dessa linha científica decorre do papel do colesterol elevado nas doenças cardíacas, que ainda constituem a principal causa de mortes em escala mundial.



