Baterias de veículos elétricos usadas ainda preservam parte relevante do desempenho original, o que amplia seu potencial para residências, empresas e instalações conectadas à rede.
A expansão da energia solar e eólica na Europa criou um problema que vai além da capacidade de geração, porque parte da eletricidade produzida não consegue chegar ao consumidor no momento certo. Nesse cenário, baterias retiradas de veículos elétricos surgem como uma alternativa para armazenar excedentes, reduzir perdas e adiar o descarte de equipamentos que ainda conservam grande parte de sua capacidade original.
Baterias usadas podem armazenar excedentes de energia
A perda de autonomia necessária para um automóvel não significa que uma bateria tenha chegado ao fim de sua utilidade técnica, porque aplicações estacionárias exigem características diferentes daquelas cobradas durante a condução.
Em residências, empresas ou instalações conectadas à rede, peso e autonomia deixam de ser fatores decisivos, o que abre espaço para o reaproveitamento de unidades que já não são adequadas para veículos.
Essa capacidade disponível ganha importância com o avanço da geração solar e eólica, fontes cuja produção nem sempre coincide com os horários de maior consumo de eletricidade.
Uma bateria reutilizada pode reservar parte da energia solar produzida nas horas de maior incidência e disponibilizá-la posteriormente, quando a demanda cresce e a geração fotovoltaica diminui.
O mesmo princípio vale para parques eólicos, porque períodos de produção elevada podem ocorrer justamente quando o consumo permanece abaixo da oferta disponível.
Nesse cenário, armazenar parte da eletricidade oferece uma alternativa à redução temporária da geração, prática necessária quando falta capacidade para absorver toda a energia produzida naquele momento.
A escala desse problema já aparece nos números europeus, pois aproximadamente 10 TWh de geração renovável deixaram de ser aproveitados em 2024 devido a limitações no sistema.
O volume equivale ao consumo anual de cerca de 3 milhões de residências e representa uma perda econômica estimada em aproximadamente € 4,3 bilhões.
Além da energia desperdiçada, a Europa acumula 455 GW de projetos de armazenamento em baterias à espera de conexão, sinal de uma demanda crescente por estruturas capazes de deslocar eletricidade entre diferentes horários.
Frota elétrica pode ampliar oferta de baterias reutilizáveis
A disponibilidade atual de equipamentos usados ainda é relativamente pequena, mas essa situação tende a mudar conforme os veículos comercializados nos últimos anos deixem gradualmente sua primeira fase de utilização.
A diferença de escala é expressiva, já que aproximadamente 215 mil veículos elétricos foram vendidos na Europa em 2016, diante de 4,2 milhões registrados em 2025, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).
Esse crescimento significa que uma quantidade muito maior de baterias deverá chegar ao fim da etapa automotiva ao longo da próxima década, mesmo que parte dos veículos permaneça em circulação por vários anos.
Outro fator aumenta esse potencial, porque a capacidade instalada nos próprios veículos também cresceu de maneira significativa ao longo dos últimos anos.
Automóveis de gerações anteriores utilizavam baterias próximas de 22 kWh a 24 kWh, ao passo que modelos recentes podem incorporar sistemas entre 50 kWh e 100 kWh.
A combinação entre maior quantidade de veículos e equipamentos de maior capacidade cria uma reserva potencial de armazenamento muito superior àquela disponível nas primeiras fases da eletrificação.
Nem todo esse volume ficará disponível simultaneamente para reutilização, porém a escala mostra o tamanho do recurso energético que poderá surgir conforme a frota envelhecer.
Segunda vida adia descarte antes da reciclagem
O reaproveitamento não elimina a necessidade de reciclar baterias, mas pode postergar essa etapa por anos e extrair mais utilidade de equipamentos que ainda conservam capacidade operacional significativa.
A reciclagem continua essencial para recuperar minerais presentes nas células, porém exige descarga, desmontagem, separação de componentes e processos técnicos capazes de tratar materiais de maneira segura.
Antes desse destino final, aplicações estacionárias permitem aproveitar uma parte da capacidade restante para funções menos exigentes do que aquelas encontradas dentro de um automóvel.
Projetos comerciais já demonstram essa possibilidade fora de ambientes experimentais, inclusive com uma instalação de 12 MWh na Califórnia que utiliza centenas de baterias retiradas de veículos elétricos da Honda.
O sistema trabalha em conjunto com geração solar e permite utilizar a eletricidade armazenada tanto no mercado local quanto em serviços associados à operação da rede.
Baterias reaproveitadas também podem ter aplicações em estruturas menores, sobretudo em regiões nas quais a combinação entre geração local e armazenamento ajuda a aumentar a disponibilidade de eletricidade.
Na África Subsaariana, por exemplo, mini-redes equipadas com unidades reutilizadas aparecem entre as possibilidades para atender comunidades distantes da infraestrutura convencional.
A expansão da frota elétrica pode, portanto, criar uma nova etapa econômica para as baterias depois do uso automotivo, com aproveitamento da capacidade remanescente antes que os materiais sigam definitivamente para reciclagem.
Fonte: EuroNews
