Agronegócio responde por quase 60% da energia renovável do Brasil

O avanço da energia renovável no campo também transformou resíduos, biomassa e subprodutos em ativos estratégicos para geração, eficiência e diversificação da matriz brasileira.

O debate sobre descarbonização ganhou uma dimensão estratégica para o agronegócio brasileiro, que deixou de ocupar apenas a posição de consumidor de energia e passou a ter peso relevante na oferta de fontes renováveis. Essa transformação resulta da expansão da bioenergia e do aproveitamento de recursos produzidos no próprio campo, movimento que alterou de forma estrutural a participação do setor na matriz nacional.

Agro ocupa posição central na matriz renovável

O papel do agronegócio na energia brasileira vai muito além do consumo necessário para lavouras, criação animal e atividades florestais espalhadas pelo território nacional.

Uma análise do FGV Bioeconomia mostra que quase 60% de toda a energia renovável disponível no país em 2023 teve alguma relação com cadeias ligadas ao campo.

Essa participação ajuda a explicar por que a matriz brasileira possui presença renovável tão superior à média mundial, especialmente quando entram no cálculo fontes originadas da biomassa agropecuária.

Sem a contribuição associada ao setor, a parcela renovável da matriz cairia de 49,1% para cerca de 20%, ainda acima da referência global de aproximadamente 15%.

A diferença revela que a estrutura energética nacional depende fortemente de matérias-primas produzidas ou aproveitadas dentro do agronegócio, com destaque para resíduos e produtos de origem vegetal e animal.

Nesse conjunto aparecem cana-de-açúcar, madeira, óleos, grãos, gordura, esterco e sebo, recursos que sustentam uma oferta de bioenergia próxima de 30% da matriz brasileira.

A evolução histórica também mostra uma mudança de escala, pois essa oferta passou de 6,5 milhões de toneladas equivalentes de petróleo em 1970 para mais de 91 milhões em 2023.

No mesmo intervalo, a participação da bioenergia vinculada ao agro na oferta interna avançou de 9,7% para 29,1%, depois de alcançar 30,1% em 2020.

Consumo permanece próximo do padrão mundial

Ao mesmo tempo que possui forte participação na oferta renovável, a agropecuária brasileira apresenta intensidade de consumo de combustíveis fósseis próxima da média observada internacionalmente.

As maiores diferenças aparecem na comparação com Holanda e Israel, onde o consumo alcançou respectivamente 24,3 e 19,9 gigajoules por hectare de culturas e florestas plantadas em 2022.

Outros países também registraram níveis superiores aos brasileiros, como Alemanha, Canadá, Nova Zelândia e Japão, com resultados distribuídos entre 4,2 e 13,2 gigajoules por hectare.

No Brasil, o indicador ficou em 4,1 gigajoules por hectare, praticamente alinhado à média global de 4,0 gigajoules para o mesmo tipo de atividade produtiva.

A comparação, porém, possui limitações importantes, porque o cálculo não considera a energia associada a fertilizantes, máquinas, insumos e diferentes etapas da cadeia de suprimentos.

Quando o consumo é relacionado ao valor econômico produzido pelo setor, o Brasil registra 1,9 gigajoule para cada US$ 1 mil de Valor Bruto da Produção.

Nesse segundo indicador, o resultado nacional também permanece próximo da referência mundial de 1,7 gigajoule e abaixo dos níveis observados em Canadá, Rússia, Espanha e Japão.

Esses países apresentam consumo entre 2,3 e 4,3 gigajoules por US$ 1 mil de produção, o que reforça a posição brasileira relativamente próxima do padrão internacional.

Bioenergia amplia peso estratégico do setor

A combinação entre forte participação na oferta renovável e consumo energético próximo da média internacional coloca o agro em uma posição relevante dentro da transição energética brasileira.

Para empresas e produtores, esse cenário amplia o interesse por tecnologias capazes de transformar resíduos, biomassa e subprodutos em energia com maior valor econômico e menor dependência fóssil.

A trajetória observada desde 1970 também indica que essa participação não resulta de um avanço pontual, mas de uma transformação estrutural construída ao longo de várias décadas.

Esse histórico cria espaço para novas oportunidades em biocombustíveis, geração distribuída, aproveitamento de resíduos e integração energética dentro de cadeias agrícolas, pecuárias e florestais.

Ao mesmo tempo, o avanço futuro dependerá de ganhos adicionais de eficiência e de soluções capazes de reduzir o peso energético de máquinas, insumos e fertilizantes.

Para a economia brasileira, os dados reforçam que políticas voltadas à descarbonização precisam considerar o agronegócio não apenas como consumidor, mas também como parte importante da oferta energética nacional.

Fonte: FGV Agro

Exit mobile version