Missão da NASA mapeia estoque de carbono em áreas da Amazônia

O estoque de carbono da Amazônia ganha relevância estratégica para políticas climáticas, já que a região concentra cerca de 17% do total armazenado nas florestas do planeta.

Medir apenas a extensão preservada de uma floresta já não basta para compreender seu peso no equilíbrio climático, porque áreas visualmente semelhantes podem guardar quantidades muito diferentes de carbono. Uma missão da NASA com participação da Universidade de Maryland passou a oferecer esse nível adicional de informação ao transformar características da vegetação amazônica em dados comparáveis sobre biomassa, conservação e perda florestal.

Carbono vira indicador para avaliar a floresta

A Amazônia concentra aproximadamente 17% do carbono armazenado nas florestas do planeta, condição que aumenta a importância de saber onde esse estoque permanece mais preservado.

Esse conhecimento ajuda a diferenciar regiões com grande volume de biomassa de áreas nas quais incêndios, mineração, retirada de madeira ou avanço agrícola já reduziram parte da capacidade climática.

A distinção também permite analisar resultados de políticas ambientais com critérios mais objetivos, porque uma área protegida pode ser comparada com outra submetida a pressões semelhantes.

Projetos de reflorestamento, prevenção de incêndios ou combate à mineração ilegal passam, dessa forma, a contar com uma referência adicional para verificar mudanças na estrutura florestal.

O mesmo tipo de informação ganha valor econômico nos mercados de carbono, nos quais estimativas pouco precisas podem comprometer a credibilidade de projetos de compensação.

Quanto maior a capacidade de acompanhar alterações reais na biomassa, menor tende a ser a incerteza sobre o carbono efetivamente preservado ou recuperado em determinado território.

Pulsos enviados do espaço medem a biomassa

Para produzir essas informações, o GEDI utiliza três lasers instalados na Estação Espacial Internacional, a cerca de 400 quilômetros da superfície terrestre.

O sistema realiza 242 disparos por segundo e registra como cada pulso atravessa a vegetação até alcançar níveis mais próximos do solo.

Cada medição cobre aproximadamente 25 metros de diâmetro e revela diferenças entre copas, camadas intermediárias e partes inferiores da floresta dentro do mesmo trecho analisado.

Esses registros permitem estimar altura e distribuição da vegetação antes que modelos calibrados com observações terrestres convertam as informações em valores aproximados de biomassa.

A etapa seguinte transforma biomassa em estoque de carbono por meio de uma relação média utilizada pelos pesquisadores, na qual uma tonelada de matéria vegetal corresponde a cerca de 0,47 tonelada de carbono.

O resultado final não mostra apenas onde existe floresta, mas também quais áreas possuem maior densidade vegetal e maior capacidade de reter carbono.

Essa precisão também ajuda a identificar degradações que não aparecem com tanta clareza em imagens convencionais, especialmente quando a cobertura vegetal permanece parcialmente intacta.

A extração seletiva de madeira exemplifica esse problema, porque pode reduzir biomassa e carbono sem criar grandes clareiras facilmente reconhecidas por outros métodos de observação.

Série até 2030 permitirá comparar mudanças

Desde o lançamento, no fim de 2018, o GEDI acumulou cerca de 25 bilhões de medições que permanecem disponíveis gratuitamente para instituições e pesquisadores.

A extensão da missão até 2030 permitirá acompanhar quase uma década de alterações e comparar regiões submetidas a diferentes pressões ambientais ao longo do tempo.

Essa continuidade pode mostrar se determinadas intervenções conseguiram recuperar biomassa, preservar estoques existentes ou reduzir perdas após incêndios e outras formas de degradação.

Em áreas remotas da Amazônia, dos Andes e da Patagônia, essa abordagem também diminui a dependência de levantamentos presenciais caros e territorialmente limitados.

Os dados já despertam interesse de instituições como o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), além de organizações ambientais e empresas especializadas em informação geoespacial.

Para governos, pesquisadores e projetos climáticos, o valor da missão está justamente na possibilidade de transformar mudanças florestais em evidências comparáveis ao longo dos anos.

Essa capacidade também pode fortalecer inventários associados ao Acordo de Paris, porque metas climáticas exigem estimativas mais confiáveis sobre emissões e remoções de carbono.

Ao acompanhar alterações dentro da própria floresta, o GEDI amplia a base disponível para pesquisa, fiscalização, avaliação de políticas públicas e verificação de projetos ambientais.

Fonte: El País e Science Friday

↑
Exit mobile version