Ferrovias no Brasil transportam apenas uma em cada cinco cargas

A expansão das ferrovias no Brasil pode diminuir o consumo de combustíveis, reduzir emissões e aliviar corredores rodoviários utilizados acima da capacidade.

A limitada participação das ferrovias no transporte de cargas brasileiro mantém grande parte da produção dependente das rodovias, com impactos sobre fretes, prazos e competitividade. Para modificar essa estrutura, uma carteira de projetos estimada em R$ 127,1 bilhões prevê ampliar corredores estratégicos, modernizar trechos existentes e melhorar a conexão entre áreas produtoras, portos e centros industriais.

Ferrovias ainda transportam parcela limitada das cargas nacionais

Entre 15% e 20% das cargas movimentadas no Brasil chegam aos destinos por ferrovias, participação equivalente a aproximadamente uma em cada cinco operações logísticas nacionais.

Esse volume percorre cerca de 12 mil quilômetros de trilhos atualmente operacionais, extensão considerada pequena diante das dimensões territoriais e das necessidades produtivas brasileiras.

A rede atende principalmente ao transporte de minério de ferro, soja, milho e outras mercadorias de grande volume, cujas características favorecem deslocamentos ferroviários por longas distâncias.

Apesar dessa relevância para as commodities, a matriz nacional permanece concentrada nas rodovias, modelo que amplia gastos com combustível, manutenção, pedágios e seguros.

A predominância dos caminhões também aumenta a exposição das cadeias produtivas a congestionamentos, acidentes, condições precárias das estradas e oscilações nos preços do diesel.

Uma rede ferroviária mais extensa permitiria distribuir melhor os fluxos de mercadorias, reduzir gargalos e oferecer alternativas aos corredores rodoviários utilizados acima da capacidade.

A ampliação desse modal também beneficiaria regiões produtoras afastadas dos portos, especialmente áreas agrícolas que enfrentam custos elevados para alcançar terminais de exportação.

Transporte ferroviário pode reduzir despesas logísticas

De acordo com estimativas da Confederação Nacional da Indústria, o transporte por ferrovias pode diminuir as despesas logísticas empresariais em até 40% perante alternativas menos eficientes.

Essa economia pode elevar a competitividade dos produtos brasileiros, especialmente em setores nos quais o frete representa parcela significativa do preço final das mercadorias.

A redução das despesas favorece produtores, indústrias, distribuidoras e consumidores, pois diminui a pressão financeira presente em diferentes etapas das cadeias de suprimentos.

O modal ferroviário também transporta grandes quantidades com menor consumo de combustível por tonelada, característica importante para trajetos extensos e operações comerciais recorrentes.

Essa eficiência energética contribui para limitar as emissões de gases poluentes, embora a construção de novos corredores também exija estudos ambientais e medidas preventivas adequadas.

A expansão dos trilhos pode ainda estimular investimentos industriais próximos às rotas, fortalecer economias regionais e criar empregos durante as fases de implantação e operação.

Entretanto, os benefícios dependem de integração com portos, rodovias, terminais de transbordo e centros de armazenagem capazes de preservar a continuidade das operações.

Sem essas conexões, novos trechos podem apresentar baixa utilização e resultados insuficientes para justificar os recursos públicos e privados aplicados em sua construção.

Projetos exigem investimentos e divisão equilibrada dos riscos

A implantação de uma nova ferrovia pode superar R$ 20 milhões por quilômetro, valor que dificulta projetos sustentados exclusivamente pelas tarifas cobradas dos usuários.

Diante desse obstáculo, as concessões precisam estabelecer responsabilidades claras entre governo e empresas, além de distribuir adequadamente riscos relacionados à demanda, construção e licenciamento.

A carteira anunciada para o setor reúne investimentos estimados em R$ 127,1 bilhões, destinados à expansão, modernização e recuperação de corredores considerados estratégicos.

O Corredor Leste-Oeste prevê aproximadamente R$ 58,2 bilhões para conectar regiões produtoras do Centro-Oeste aos portos localizados no litoral baiano.

A Ferrogrão, com 933 quilômetros projetados entre Sinop e Miritituba, pretende criar uma rota adicional para o escoamento de grãos produzidos no Mato Grosso.

A Malha Oeste possui 1.625 quilômetros entre Mairinque e Corumbá e poderá receber R$ 29 bilhões após a conclusão do processo de relicitação.

Outro projeto relevante é o Anel Ferroviário do Sudeste, estimado em R$ 6,6 bilhões para integrar trilhos e portos entre Rio de Janeiro e Espírito Santo.

A execução dessas obras dependerá de segurança jurídica, planejamento financeiro, licenciamento ambiental e contratos capazes de atrair investidores especializados durante períodos prolongados.

Uma política ferroviária consistente poderá reduzir custos, diversificar a matriz de transporte e aumentar a capacidade brasileira para competir nos principais mercados internacionais.

Fonte: O Globo

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