O Gabão decidiu endurecer as regras sobre a iboga antes que um mercado global de ibogaína se consolide, com medidas que incluem repartição de benefícios, controle de patentes e restrições à exportação da planta.
A aproximação dos Estados Unidos com a ibogaína transformou uma planta ligada há gerações às tradições do Gabão em um ativo potencialmente estratégico para a indústria farmacêutica internacional. Enquanto Washington abre espaço regulatório para futuros tratamentos e o Texas direciona US$ 50 milhões a pesquisas, o governo gabonês tenta estabelecer barreiras antes que uma eventual expansão comercial retire do país a matéria-prima, o conhecimento cultural e as etapas mais lucrativas dessa cadeia.
Interesse estadunidense muda o tamanho do risco
O principal ponto de inflexão não está apenas nos estudos científicos, mas na possibilidade de que uma demanda farmacêutica muito maior surja antes da consolidação das regras econômicas e ambientais.
Uma ordem executiva dos Estados Unidos mencionou compostos relacionados à ibogaína e determinou a criação de um caminho regulatório para pacientes considerados elegíveis, movimento que ampliou a atenção sobre a substância.
Esse interesse recebe reforço financeiro no Texas, onde US$ 50 milhões foram destinados a um estudo multicêntrico capaz de ampliar significativamente a base científica disponível sobre o composto.
Caso pesquisas futuras sustentem aplicações terapêuticas, a procura internacional pode crescer em uma escala incompatível com a oferta atual da planta nas florestas da África Central.
A evidência disponível ainda exige cautela, porque resultados promissores não equivalem à comprovação definitiva de eficácia para dependência química ou transtornos psiquiátricos.
Um estudo realizado em 2024 com 30 veteranos das forças especiais estadunidenses registrou forte redução de sintomas associados a estresse pós-traumático, depressão e ansiedade após tratamento que combinou ibogaína, magnésio e outras intervenções.
Como não havia grupo de controle e outras terapias fizeram parte do protocolo, os resultados não permitem atribuir isoladamente os efeitos observados à substância extraída da iboga.
Essa limitação científica torna o contraste ainda mais relevante, pois o interesse econômico pode avançar em velocidade superior à própria confirmação clínica do potencial terapêutico.
Gabão tenta evitar outra cadeia de baixo valor
Para o Gabão, a ameaça econômica não depende apenas de uma possível escassez futura, mas da repetição de um modelo no qual países fornecedores exportam recursos naturais enquanto pesquisa, propriedade intelectual e produtos de maior margem permanecem em mercados estrangeiros.
O avanço estadunidense sobre a ibogaína aumenta essa preocupação justamente porque a estrutura farmacêutica necessária para transformar compostos naturais em medicamentos está concentrada fora do país africano.
Em maio, o governo reconheceu formalmente os conhecimentos tradicionais associados à iboga como patrimônio nacional e vinculou usos comerciais a mecanismos de repartição de benefícios.
Pedidos de patente relacionados à planta também passaram a exigir informação sobre a origem do material utilizado, numa tentativa de tornar rastreável a conexão entre inovação comercial e recurso biológico gabonês.
A criação de um fundo soberano específico acrescentou uma dimensão econômica à estratégia, pois royalties e receitas obtidas por acordos de repartição poderão alimentar um mecanismo nacional.
Em setembro, o governo avançou para uma medida ainda mais restritiva ao aprovar uma proposta que proíbe a exportação da iboga e de seus derivados.
Essa reação busca preservar espaço para que parte maior do valor permaneça dentro do próprio Gabão, antes que um mercado internacional mais estruturado defina preços, fornecedores e propriedade intelectual.
A experiência da ayahuasca oferece um paralelo importante, porque uma tradição amazônica também ganhou circulação global e passou a provocar disputas sobre comercialização, autoridade cultural e distribuição dos ganhos.
Pressão comercial também alcança a floresta
A eventual expansão do mercado não ameaça apenas a posição econômica do Gabão, pois a própria biologia da iboga impõe limites que podem tornar uma corrida por matéria-prima ambientalmente destrutiva.
A exploração comercial costuma atingir o sistema radicular, cuja retirada completa mata a planta e exige renovação constante das áreas utilizadas.
Relatos de extração sem replantio já ampliam a preocupação com populações naturais pouco estudadas, especialmente porque a iboga selvagem é considerada rara em determinadas regiões.
Uma elevação rápida da procura internacional pode aumentar a pressão justamente sobre um recurso cuja capacidade de regeneração comercial ainda não acompanha necessariamente uma expansão farmacêutica de grande escala.
Parte dessa dependência pode ser reduzida porque a ibogaína também admite produção semissintética a partir da Voacanga africana, outra espécie encontrada no continente.
Mesmo assim, a raiz da iboga mantém valor próprio para cerimônias e para extratos que preservam uma combinação mais ampla de alcaloides, o que impede substituir completamente a planta por outra fonte.
No Gabão, essa distinção também possui dimensão cultural, porque o Bwiti não trata a iboga apenas como reservatório de uma molécula farmacológica isolada.
O conhecimento envolve a planta inteira, seu ambiente florestal e práticas comunitárias transmitidas entre gerações, elementos que podem desaparecer quando o recurso passa a ser observado exclusivamente pelo potencial comercial da ibogaína.
A estratégia gabonesa procura, portanto, construir regras antes que a demanda impulsionada por pesquisas e políticas estadunidenses determine os termos dessa nova cadeia internacional.
O caso coloca em disputa algo maior do que um possível medicamento, pois envolve quem controlará a matéria-prima, quem capturará o valor industrial e quanto permanecerá com as comunidades que preservaram esse conhecimento muito antes de sua entrada nos laboratórios.
Fonte: The Guardian
