Geleiras da Nova Zelândia podem perder até 100% do volume até 2100

As geleiras da Nova Zelândia passaram de 56 para 30 quilômetros cúbicos de gelo entre 1997 e 2023, trajetória que mantém o futuro dessas formações sob forte incerteza.

A Nova Zelândia começa a enfrentar um problema que ultrapassa a esfera ambiental, pois alterações no clima já pressionam infraestrutura, atividades produtivas e áreas costeiras construídas sob condições historicamente mais previsíveis. O relatório governamental Our Atmosphere and Climate 2026 mostra que o país atingiu níveis recordes de gases de efeito estufa, enquanto a perda de gelo nas montanhas oferece uma das evidências mais claras dessa transformação.

Gelo pode desaparecer em áreas do país

Os cenários mais severos para o fim deste século colocam parte das geleiras neozelandesas diante da possibilidade de desaparecimento, caso as emissões globais permaneçam em níveis elevados.

Nessa trajetória, as estimativas apontam uma redução entre 69% e 100% do volume de gelo até 2100, faixa que mostra a dimensão potencial da mudança nas regiões montanhosas.

Esse risco futuro encontra respaldo em uma transformação que já ocorreu nas últimas décadas, muito antes do horizonte projetado pelos modelos climáticos utilizados no relatório.

Entre 1997 e 2023, o estoque conjunto das aproximadamente três mil geleiras passou de 56 para 30 quilômetros cúbicos, uma redução expressiva em apenas 26 anos.

Uma trajetória mundial de emissões mais baixas reduziria a intensidade do problema, mas não eliminaria novas perdas no conjunto das geleiras existentes no território neozelandês.

Mesmo nessa hipótese, as projeções indicam uma diminuição que pode variar entre 14% e 86%, o que mantém uma ampla parcela do gelo sob pressão durante este século.

Para a economia, a redução dessas reservas naturais acrescenta incertezas sobre recursos hídricos, atividades turísticas e ecossistemas que dependem das condições térmicas características das regiões de altitude.

A mudança também exige planejamento de longo prazo para áreas cuja ocupação e exploração econômica se desenvolveram sob uma disponibilidade de gelo muito diferente da projetada para as próximas décadas.

Oceano reforça sinais de aquecimento

A transformação observada nas montanhas acompanha uma mudança mais ampla, pois a temperatura média anual da Nova Zelândia já aumentou 1,36°C desde o início das medições, em 1909.

Além disso, sete dos dez anos mais quentes registrados no país pertencem à última década, o que mostra a concentração recente dos maiores extremos térmicos.

A composição da atmosfera também se afastou dos padrões observados décadas atrás, com alta de 30% na concentração de dióxido de carbono desde o começo do monitoramento nacional, em 1972.

O metano seguiu trajetória semelhante e alcançou em 2025 a maior concentração já identificada pelas medições realizadas no território neozelandês.

Os mares ao redor do país acrescentam outro sinal relevante, porque em 2025 registraram aquecimento 34% mais rápido do que a média observada globalmente.

Ondas de calor marinhas mais intensas já aparecem associadas a danos sobre esponjas, algas, peixes e pinguins, o que amplia ameaças para ecossistemas e atividades ligadas ao ambiente costeiro.

O conjunto desses indicadores transforma a adaptação climática em uma questão também econômica, pois geleiras menores, mares mais quentes e eventos extremos elevam riscos sobre patrimônio público, propriedade privada e setores produtivos.

A principal mudança para a Nova Zelândia está justamente na perda de uma referência climática relativamente estável, utilizada durante décadas para planejar cidades, infraestrutura, produção e ocupação territorial.

Clima passa a pressionar ativos e território

A elevação do nível do mar amplia a exposição de imóveis, estradas e outros ativos próximos à costa, ao mesmo tempo que a erosão tende a elevar os custos necessários para adaptação.

Esse processo também ameaça espaços de importância cultural para comunidades Māori, que podem perder acesso a áreas modificadas por alterações físicas no litoral e em ecossistemas associados.

No campo econômico, a combinação entre secas mais frequentes, calor mais intenso e eventos meteorológicos severos adiciona incertezas para produtores rurais, seguradoras, governos locais e operadores de infraestrutura.

Agricultura, habitação e transportes aparecem entre as áreas mais expostas porque dependem diretamente de água, estabilidade territorial e estruturas capazes de suportar condições meteorológicas extremas.

A experiência recente ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade, pois o ciclone Gabrielle e as enchentes de Auckland, ambos ocorridos em 2023, deixaram mortes e prejuízos materiais de bilhões de dólares.

O novo diagnóstico projeta ainda maior ocorrência de ondas de calor e mais dias acima de 25°C até 2050, com potenciais efeitos sobre produtividade, saúde e demanda por serviços públicos.

Fonte: The Guardian

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