Transição energética ameaça receitas de países exportadores de petróleo

Alguns países exportadores de petróleo podem perder espaço mais rapidamente que concorrentes de baixo custo, o que tende a aprofundar desigualdades dentro do próprio mercado produtor.

A redução gradual da dependência mundial do petróleo tende a alterar profundamente a posição de países que, durante décadas, financiaram parte relevante do Estado com receitas provenientes das exportações. O problema ganha maior dimensão nas economias que ainda possuem poucas alternativas de arrecadação e menor capacidade para absorver uma queda prolongada nesses recursos.

Dependência fiscal amplia vulnerabilidade

A transição para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis tende a produzir efeitos muito diferentes entre os países exportadores, sobretudo onde o petróleo sustenta grande parcela das receitas públicas.

Em 17 economias, mais de 40% dos recursos governamentais vêm dessa atividade, o que reduz a margem para enfrentar uma queda prolongada na arrecadação sem comprometer serviços essenciais.

Iraque e Líbia aparecem entre os casos mais expostos, pois entre 70% e 90% das receitas estatais permanecem vinculadas ao setor petrolífero e à manutenção de suas exportações.

Nigéria, Irã, Angola e Argélia também apresentam forte vulnerabilidade, já que possuem baixa diversificação econômica e capacidade financeira limitada para absorver perdas expressivas ao longo dos próximos anos.

As projeções da E3G indicam que a Argélia pode perder 87% das receitas relacionadas ao petróleo após 2030, enquanto a retração prevista para a Nigéria supera 60%.

Uma deterioração dessa magnitude pode reduzir a capacidade dos governos de financiar políticas públicas, administrar dívidas e preservar estruturas institucionais que dependem diretamente de receitas externas.

Menor demanda aumenta competição

Essa pressão fiscal tende a crescer conforme o consumo mundial se aproxima de um patamar máximo, cenário esperado para o início da década de 2030 segundo as projeções analisadas.

Com menos compradores disponíveis, produtores com estruturas mais eficientes deverão conquistar vantagem comercial, enquanto países com custos elevados podem enfrentar dificuldades maiores para preservar participação no mercado internacional.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aparecem em posição relativamente mais favorável porque combinam reservas abundantes com custos de produção inferiores aos registrados por vários concorrentes.

Para economias mais frágeis, porém, a perda de espaço comercial pode gerar efeitos que ultrapassam o setor energético e alcançam emprego, estabilidade política, migração e segurança regional.

Na Argélia, a redução da arrecadação pode ampliar tensões sociais, enquanto Iraque, Nigéria e Líbia enfrentam riscos específicos ligados à capacidade estatal e ao controle de ativos estratégicos.

Diversificação precisa antecipar a queda

Os pesquisadores rejeitam a ideia de que uma transição mais lenta resolveria o problema, porque o adiamento dos ajustes pode preservar a dependência fiscal sem criar novas bases econômicas.

A alternativa passa por ampliar outras fontes de receita, fortalecer setores produtivos menos ligados ao petróleo e preparar os governos para um ambiente de menor procura internacional.

Esse processo exige coordenação entre países exportadores, instituições multilaterais e agentes privados, com participação de organizações como Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.

Sem essa preparação, a perda de receitas pode transformar uma mudança estrutural do mercado energético em sucessivas crises nacionais, com efeitos econômicos e políticos capazes de ultrapassar fronteiras.

Fonte: The Guardian

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