OMC alerta para risco de fragmentação do comércio global

A fragmentação do comércio pode reduzir o PIB mundial em 5,1% até 2050 e deixar as exportações globais 18,6% abaixo do nível projetado.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) considera que a arquitetura criada para organizar as relações comerciais internacionais enfrenta uma de suas fases mais delicadas, diante de disputas econômicas que passaram a envolver tarifas, subsídios, tecnologia e estratégias nacionais de produção. Para a entidade, a capacidade de preservar mercados relativamente integrados dependerá de reformas que atualizem as regras multilaterais sem permitir que rivalidades políticas reorganizem as trocas internacionais em grupos cada vez mais fechados.

Fragmentação pode reduzir atividade global

A principal preocupação da OMC está na possibilidade de que disputas políticas passem a orientar cada vez mais as relações comerciais, com países concentrados em grupos estratégicos e menos conectados ao restante da economia mundial.

Nesse cenário, decisões sobre fornecedores, investimentos e cadeias produtivas poderiam seguir critérios geopolíticos com maior frequência, mesmo quando alternativas externas oferecessem vantagens econômicas superiores.

Os efeitos dessa ruptura seriam expressivos ao longo das próximas décadas, pois uma divisão do comércio em blocos geopolíticos poderia deixar o PIB mundial 5,1% abaixo do nível esperado até 2050.

As exportações sentiriam impacto ainda maior, com volume 18,6% inferior ao projetado para uma economia internacional que preservasse maior integração entre diferentes mercados.

Uma deterioração mais profunda, marcada por menor cooperação multilateral e maior dependência de acordos preferenciais separados, poderia ampliar ainda mais as perdas previstas pela organização.

Nessa hipótese, o PIB global ficaria até 6,9% abaixo da trajetória esperada, enquanto as exportações mundiais poderiam sofrer uma redução próxima de 27%.

Os países menos desenvolvidos aparecem entre os mais expostos porque possuem menor margem para substituir parceiros comerciais, financiar políticas de apoio ou reorganizar rapidamente suas cadeias produtivas.

Uma economia internacional mais fragmentada também pode elevar barreiras contra países externos a determinados acordos, o que restringe oportunidades justamente para mercados com menor poder de negociação.

A OMC não trata acordos regionais ou plurilaterais como um problema por definição, já que esses instrumentos podem ampliar relações econômicas quando permanecem compatíveis com parâmetros multilaterais.

O risco surge quando essas estruturas deixam de complementar o sistema internacional e passam a funcionar como blocos fechados, com benefícios concentrados entre aliados e obstáculos adicionais para terceiros.

Reformas precisam acompanhar nova economia

Evitar esse cenário exige atualizar regras criadas para uma economia internacional muito diferente daquela marcada hoje por comércio digital, disputas tecnológicas e políticas nacionais voltadas a setores estratégicos.

Tarifas, subsídios, controles de exportação e incentivos industriais ganharam espaço entre as ferramentas adotadas pelos governos, o que aumentou a complexidade das relações entre os principais mercados.

A redistribuição do poder econômico também tornou o consenso mais difícil dentro de uma organização formada por 166 membros com prioridades, níveis de desenvolvimento e estruturas produtivas bastante distintos.

Cada reforma precisa conciliar interesses de economias exportadoras, países industrializados, mercados emergentes e nações mais vulneráveis, o que reduz a velocidade das negociações sobre novas regras.

Esse desafio ganhou maior peso com o aumento recente da incerteza comercial, especialmente após o retorno de Donald Trump à Casa Branca e a maior utilização de instrumentos protecionistas.

Quanto maior a imprevisibilidade sobre tarifas, subsídios e restrições comerciais, menor tende a ser a segurança das empresas para planejar investimentos, produção e cadeias internacionais de fornecimento.

A própria OMC apresenta um caminho oposto à fragmentação, no qual uma cooperação mais forte poderia elevar o PIB mundial em 2,9% e ampliar as exportações em quase 18%.

Os ganhos seriam particularmente relevantes para economias menos desenvolvidas, que teriam acesso mais amplo a mercados externos e menor dependência de alianças comerciais restritas.

A reforma do sistema multilateral aparece, portanto, como uma tentativa de preservar os benefícios da integração sem ignorar as mudanças que alteraram a relação econômica entre os países.

Para a OMC, regras mais atualizadas podem reduzir a discriminação comercial, limitar barreiras entre blocos e oferecer maior previsibilidade para governos e empresas em uma economia internacional cada vez mais disputada.

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