Falta de talentos em tecnologia afeta 98% das médias e grandes empresas

A escassez de talentos em tecnologia prolonga processos seletivos e faz com que parte das empresas leve até 90 dias para preencher uma única vaga.

O mercado brasileiro de tecnologia enfrenta um problema que não pode ser resumido apenas à ausência de profissionais disponíveis para contratação nas empresas. O principal descompasso aparece na combinação exigida pelas companhias, que procuram domínio técnico, experiência prática e capacidade de atuar em ambientes colaborativos cada vez mais complexos.

Exigências acumuladas reduzem o número de candidatos

Esse desalinhamento ajuda a explicar por que 98% das médias e grandes empresas consultadas relatam dificuldades para contratar profissionais qualificados em tecnologia.

O levantamento da Ford em parceria com o Datafolha ouviu 250 líderes de Recursos Humanos e Tecnologia da Informação de diferentes regiões e setores econômicos.

O tempo necessário para fechar uma vaga mostra como essa seleção mais restrita afeta diretamente as empresas que precisam ampliar suas equipes tecnológicas.

Metade das organizações leva entre um e dois meses para concluir uma contratação, enquanto aproximadamente 25% podem esperar até 90 dias pelo preenchimento de uma posição.

A experiência profissional também limita o número de pessoas que avançam nos processos, pois 54% das companhias apontam esse fator como obstáculo relevante.

Isso cria uma dificuldade adicional para candidatos que possuem formação técnica, mas ainda não acumularam vivência suficiente em projetos empresariais ou ambientes de produção.

Mesmo um currículo tecnicamente forte pode não garantir a contratação, porque 37% das empresas afirmam recusar com frequência candidatos qualificados quando faltam competências comportamentais.

Inteligência emocional e pensamento crítico aplicado à resolução de problemas aparecem entre as capacidades mais escassas observadas pelas lideranças consultadas.

Essa exigência reflete uma mudança mais ampla no papel das áreas de tecnologia, que passaram a interagir diretamente com operações, produtos, clientes e decisões estratégicas.

Por isso, empresas procuram profissionais capazes de explicar problemas, negociar prioridades e trabalhar com diferentes equipes, além de simplesmente executar tarefas técnicas.

Inteligência artificial aumenta a disputa por especialização

A pressão fica ainda maior nas áreas que avançaram mais rapidamente com a transformação digital, especialmente inteligência artificial, engenharia de software e segurança da informação.

Entre os entrevistados, 35% apontam especialistas em inteligência artificial como os profissionais mais difíceis de contratar, enquanto 31% destacam engenheiros de software.

A escassez não se limita aos cargos, porque conhecimentos em machine learning e segurança da informação também aparecem entre as habilidades técnicas mais difíceis de encontrar.

Para empresas que dependem dessas competências, a falta de profissionais preparados pode atrasar projetos, aumentar custos de recrutamento e elevar a dependência de treinamento interno.

O dado mais amplo ajuda a dimensionar esse problema, já que 72% das organizações identificam a falta de conhecimento técnico como principal barreira nas contratações.

Esse percentual mostra que o avanço acelerado das tecnologias criou uma distância entre aquilo que as empresas precisam aplicar agora e aquilo que parte do mercado profissional consegue entregar.

Ao mesmo tempo, metade das lideranças acredita que competências comportamentais poderão se tornar ainda mais difíceis de encontrar do que habilidades técnicas nos próximos anos.

Essa percepção sugere que cursos, certificações e experiência em ferramentas específicas não resolverão sozinhos o gargalo de contratação enfrentado pelo setor.

Para as empresas, a saída tende a exigir uma combinação maior entre recrutamento externo, formação interna e desenvolvimento profissional ao longo da carreira.

O desafio não está apenas em encontrar pessoas que conheçam tecnologia, mas em formar profissionais capazes de aplicar esse conhecimento dentro de problemas reais de negócio.

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