Petróleo pesado e roubos pressionam refinarias da Pemex

O México ampliou a produção interna de diesel em 2026, mas o desempenho das refinarias da Pemex mostra que a expansão do refino ainda enfrenta obstáculos para sustentar maior independência energética.

A crise do diesel no México expõe limitações que ultrapassam a simples disponibilidade de petróleo e alcançam a eficiência do parque de refino, a qualidade da matéria-prima e a segurança da cadeia de abastecimento. Apesar dos investimentos realizados nos últimos anos, a Pemex ainda opera com unidades pouco adaptadas ao perfil do petróleo processado e necessidade de modernização tecnológica. Ao mesmo tempo, contrabando, fraude tributária e furtos em oleodutos ampliam as perdas do sistema e dificultam o avanço do país em direção a uma menor dependência de combustíveis importados.

Petróleo pesado reduz eficiência do sistema de refino

Muitas refinarias mexicanas foram projetadas para processar petróleo mais leve, mas parte relevante dessas instalações passou a receber uma matéria-prima mais pesada e menos adequada às configurações originalmente previstas.

Essa diferença interfere diretamente no rendimento industrial, pois o processamento tende a gerar uma participação maior de óleo combustível e reduz o espaço de derivados com maior valor comercial.

Diesel, gasolina e querosene de aviação representam produtos mais rentáveis para a cadeia, razão pela qual uma conversão menos eficiente compromete tanto receitas quanto capacidade de abastecimento interno.

O problema alcança inclusive Dos Bocas, refinaria recente e considerada estratégica para a política energética mexicana, cuja operação também enfrenta limitações associadas às características do petróleo recebido.

A unidade representa uma parcela importante dos investimentos realizados pelo governo para ampliar a produção doméstica, mas sua presença não elimina dificuldades técnicas existentes em outras partes do parque de refino.

Uma alternativa defendida por especialistas seria importar petróleo mais leve e compatível com essas instalações, mesmo que essa estratégia pareça contraditória diante da busca oficial por autossuficiência energética.

Nesse modelo, o país compraria matéria-prima externa para fabricar internamente maior quantidade de diesel, gasolina e outros derivados, em vez de adquirir diretamente esses combustíveis no mercado internacional.

A escolha colocaria a eficiência industrial no centro da política energética, porque a origem nacional do petróleo perde parte da importância quando as refinarias não conseguem extrair dele a quantidade desejada de produtos mais valiosos.

Produção cresce, mas refinarias continuam abaixo do potencial

A produção mexicana de diesel superou 316 mil barris por dia em agosto, quantidade suficiente para atender aproximadamente 60% do consumo doméstico naquele período.

Dos Bocas respondeu por cerca de 106 mil barris diários e ocupou a liderança entre as unidades produtoras, enquanto Cadereyta apareceu na segunda posição dentro do sistema nacional.

Apesar desse avanço, o parque mexicano ainda opera com menos de 70% da capacidade disponível, situação que limita os efeitos dos investimentos feitos para ampliar a oferta de combustíveis.

Parte das refinarias mais antigas também precisa de modernização tecnológica e atualização de processos, sobretudo porque equipamentos defasados reduzem produtividade e dificultam uma adaptação eficiente ao petróleo disponível.

Esses gargalos ajudam a explicar por que aproximadamente 40% do diesel consumido no México ainda depende de fornecedores externos, com peso significativo das vendas realizadas pelos Estados Unidos.

Em junho de 2026, as importações mexicanas de diesel estadunidense chegaram a aproximadamente 199 mil barris por dia, volume cerca de 11% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior.

A exposição ao mercado externo tornou-se mais evidente depois que Washington cogitou limitar as exportações do combustível, embora o governo estadunidense tenha posteriormente recuado dessa possibilidade.

Mesmo sem a adoção da restrição, o episódio mostrou como uma decisão tomada fora do México pode atingir rapidamente um mercado que ainda precisa de fornecimento estrangeiro para completar sua demanda.

O crescimento da produção nacional reduz essa vulnerabilidade, mas não elimina o risco enquanto limitações tecnológicas, capacidade ociosa e baixa eficiência continuarem presentes no sistema de refino.

Mercado ilegal retira receitas e pressiona a Pemex

Os problemas industriais coexistem com um mercado clandestino de grandes proporções, responsável por retirar receitas do Estado e criar desequilíbrios adicionais para empresas que atuam dentro das regras oficiais.

Uma das principais práticas é o chamado “huachicol” fiscal, esquema no qual diesel entra no México sem o recolhimento regular dos tributos exigidos pelas autoridades.

Estimativas referentes a junho indicam que aproximadamente 103 mil barris diários de diesel ilegal atravessaram a fronteira entre Estados Unidos e México por meio desse tipo de operação.

Esse volume equivaleria a aproximadamente 12% do mercado nacional de diesel, proporção relevante para um setor que já enfrenta dificuldades de produção e forte participação das importações.

A entrada irregular também cria concorrência desigual para distribuidores formais, reduz arrecadação tributária e torna mais complexa a identificação do verdadeiro volume disponível para consumo dentro do país.

Além da fraude fiscal, a Pemex ainda enfrenta o roubo tradicional de combustíveis diretamente de oleodutos, prática que provoca perdas físicas e aumenta despesas relacionadas à proteção da infraestrutura.

As duas modalidades exigem respostas diferentes porque uma explora brechas tributárias no comércio internacional, enquanto a outra depende da retirada clandestina de produto já inserido na rede energética.

Medidas governamentais que reduzem impostos sobre o diesel podem diminuir o ganho obtido com a evasão fiscal, mas também alteram a relação econômica entre as diferentes formas de atuação ilegal.

Caso a vantagem financeira do huachicol fiscal perca força, o furto físico pode se tornar relativamente mais atrativo para organizações que já atuam no mercado clandestino de combustíveis.

Soberania energética depende de mudanças além de refinarias

A combinação de petróleo pouco adequado às instalações, capacidade subutilizada, necessidade de modernização e mercado ilegal ajuda a explicar por que a independência energética mexicana permanece distante.

Os investimentos recentes ampliaram a estrutura de refino e contribuíram para elevar a produção doméstica, mas não resolveram obstáculos que comprometem o rendimento econômico de todo o sistema.

Uma refinaria nova acrescenta capacidade ao país, porém seus efeitos permanecem limitados quando outras unidades trabalham abaixo do potencial ou recebem matéria-prima pouco compatível com seus equipamentos.

Da mesma forma, uma produção maior de diesel oferece proteção adicional contra choques externos, mas ainda deixa o mercado vulnerável quando quase metade do consumo depende de importações.

A soberania energética mexicana, portanto, exige uma estratégia capaz de combinar eficiência industrial, atualização tecnológica, escolha adequada de matérias-primas e redução efetiva das perdas causadas pelo mercado ilegal.

Enquanto essas fragilidades permanecerem, a Pemex poderá aumentar sua produção sem alcançar a segurança de abastecimento necessária para reduzir de maneira decisiva a dependência externa do México.

Fonte: El País

↑
Exit mobile version