Conferência na Armênia revisará pela primeira vez o acordo global firmado em Kunming-Montreal e discutirá como acelerar proteção, financiamento e recuperação dos ecossistemas.
A COP17 da Biodiversidade começou nesta segunda-feira (19), em Yerevan, na Armênia, com mais de 200 países diante de uma tarefa central que vai além de anunciar novas promessas ambientais. Pela primeira vez, a conferência fará uma revisão do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, referência internacional criada para conter a perda de natureza até 2030.
Metas de 2030 ainda estão distantes
O principal desafio aparece na diferença entre os compromissos assumidos internacionalmente e a velocidade com que as medidas necessárias avançam dentro dos países participantes.
O marco aprovado por 196 nações estabelece 23 objetivos para esta década, mas a avaliação preparada para a COP17 mostra que o ritmo atual permanece insuficiente para alcançar diversos resultados previstos.
Caso a trajetória permaneça próxima da observada até agora, apenas 26% dos ecossistemas terrestres e 12% dos ambientes marinhos terão proteção ao final da década.
Esses percentuais ajudam a dimensionar por que a conferência deverá concentrar esforços menos na criação de novas metas e mais na execução efetiva daquelas já negociadas.
Alguns avanços, entretanto, mostram que a implementação começou a sair do campo das declarações nacionais para mudanças concretas na proteção territorial.
Desde a adoção do marco, mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados em áreas terrestres ganharam proteção legal, enquanto aproximadamente 6 milhões de quilômetros quadrados adicionais passaram a contar com proteção nos oceanos.
Quase todos os países vinculados à convenção também estabeleceram objetivos nacionais, passo necessário para transformar compromissos internacionais em políticas adaptadas às realidades locais.
Mesmo assim, análises preparadas para o encontro apontam atrasos relevantes e níveis de ambição ainda incompatíveis com a velocidade atual da degradação dos ecossistemas.
Financiamento pode definir ritmo da conservação
A dificuldade para cumprir as metas não depende apenas de decisões ambientais, porque preservar grandes áreas exige recursos financeiros, capacidade técnica e instituições capazes de executar políticas durante muitos anos.
Países com elevada biodiversidade frequentemente assumem parcela significativa desses custos, embora os benefícios produzidos por florestas, oceanos e outros ecossistemas ultrapassem suas próprias fronteiras.
Essa assimetria coloca financiamento e cooperação internacional entre os assuntos mais importantes da COP17, especialmente para governos que possuem grandes áreas naturais e menor capacidade fiscal.
A discussão deverá incluir mecanismos capazes de ampliar acesso a recursos, conhecimento técnico e instrumentos que permitam transformar planos nacionais em ações mensuráveis.
A dimensão econômica da perda de natureza também amplia a pressão por respostas mais rápidas, porque os custos ambientais que normalmente ficam fora das contas tradicionais alcançam valores expressivos.
As estimativas apresentadas para as discussões situam esse impacto entre US$ 10 trilhões e US$ 25 trilhões por ano, com reflexos sobre produção, disponibilidade de água, alimentação, clima e saúde.
A biodiversidade passa, portanto, a ocupar uma posição que ultrapassa políticas de conservação isoladas, porque sua deterioração pode comprometer recursos utilizados diretamente por sociedades e atividades econômicas.
Esse vínculo também explica por que a COP17 deverá tratar a recuperação dos ecossistemas como parte de uma agenda mais ampla de segurança ambiental e desenvolvimento.
Conectividade pode ampliar eficácia da proteção
A expansão territorial das áreas protegidas representa apenas parte do desafio, porque unidades isoladas nem sempre conseguem preservar os movimentos naturais necessários à sobrevivência de diferentes espécies.
Corredores ecológicos aparecem nesse contexto como uma alternativa para conectar ambientes terrestres, marinhos e de água doce separados por atividades humanas ou por limites administrativos.
Uma rede mais integrada permite que populações animais e vegetais circulem entre diferentes áreas, o que pode ampliar acesso a alimento, locais de reprodução e condições ambientais adequadas.
Essa lógica acrescenta qualidade à conservação ao buscar ecossistemas capazes de funcionar em conjunto, em vez de considerar cada área protegida como uma unidade completamente independente.
O Brasil deverá levar essa abordagem às discussões internacionais e defender maior presença da conectividade nos programas vinculados à Convenção sobre Diversidade Biológica.
A experiência brasileira entra, nesse caso, como parte de uma discussão mais ampla sobre como diferentes países podem tornar suas redes de conservação mais eficientes até 2030.
A COP17 seguirá até o dia 30 e terá como teste principal transformar uma agenda internacional já definida em medidas capazes de alterar a trajetória observada até agora.
Com pouco tempo restante até 2030, a distância entre compromissos e resultados passa a ocupar uma posição central nas negociações sobre o futuro da biodiversidade global.
Fonte: Agência Brasil
