El Niño extremo pode aprofundar desigualdades entre países e comunidades, sobretudo onde atividades rurais e pesqueiras exercem papel relevante na geração de renda.
Um El Niño de intensidade excepcional pode provocar uma cadeia de impactos ambientais capaz de atingir recursos hídricos, produção de alimentos, geração elétrica e ecossistemas marinhos em grande parte da América Latina e do Caribe. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), estima que, em um cenário extremo, as perdas econômicas poderiam alcançar pelo menos 2% do PIB regional em três anos, com cerca da metade desse impacto concentrada já no primeiro ano.
Alterações no Pacífico podem causar pressões
O ponto inicial desse risco está no aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, alteração que interfere na circulação atmosférica e modifica a distribuição das chuvas sobre diferentes partes do continente.
As projeções disponíveis indicam que, entre outubro e dezembro de 2026, determinadas áreas podem alcançar 60% de probabilidade de precipitação abaixo do esperado, enquanto 31,1% do território regional aparece sob nível elevado de alerta.
Uma redução persistente das chuvas teria efeito direto sobre reservatórios utilizados tanto para abastecimento quanto para geração de eletricidade, especialmente em países com forte dependência de usinas hidrelétricas.
Em algumas economias latino-americanas, essa fonte responde por mais de 70% da matriz elétrica, situação que aumenta a exposição a períodos prolongados de escassez hídrica.
O problema pode se tornar mais complexo porque temperaturas elevadas tendem a pressionar o consumo de eletricidade justamente em momentos de menor disponibilidade de água para geração.
Grandes centros urbanos, entre eles São Paulo, Lima e Cidade do México, aparecem como exemplos de áreas nas quais demanda energética e restrição hídrica podem ocorrer simultaneamente.
No campo, partes da América Central, da Colômbia, da Venezuela e do Caribe apresentam probabilidade superior a 70% de seca com potencial de afetar a atividade agropecuária.
Uma deterioração mais forte das condições climáticas pode reduzir colheitas, limitar a oferta de forragem, diminuir a disponibilidade de alimentos e comprometer a renda de famílias ligadas à produção rural.
O ambiente marinho também pode sofrer alterações relevantes porque águas superficiais mais quentes reduzem a chegada de nutrientes provenientes de camadas profundas do oceano.
Essa mudança afeta a produtividade biológica necessária para sustentar espécies importantes para a pesca, entre elas anchoveta, sardinha e merluza, que podem apresentar menor disponibilidade ou migrar para outras áreas.
Risco climático pode ampliar pobreza
A dimensão econômica aparece como consequência de perdas que começam na disponibilidade de água, na produção rural, na pesca e na infraestrutura necessária para sustentar atividades essenciais.
No cenário mais severo analisado pela Cepal, até 4,8 milhões de pessoas adicionais poderiam entrar na pobreza até o fim da década, com maior exposição entre comunidades rurais e pesqueiras.
A combinação entre menor produção agrícola, redução de renda, alimentos mais caros e custos energéticos elevados pode ampliar dificuldades sociais muito além das áreas diretamente atingidas pela seca.
Esse efeito tende a variar entre países porque estrutura produtiva, dependência hídrica, capacidade fiscal e acesso à proteção social apresentam diferenças significativas dentro da região.
As projeções climáticas também reforçam a necessidade de preparação, pois a NOAA aponta probabilidade superior a 90% de intensidade muito forte entre o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026 e 2027.
A possibilidade de classificação como Super El Niño foi estimada em 69%, com anomalias de temperatura da superfície do mar que podem superar 2,5°C ou 3°C na região Niño 3.4.
Esses percentuais não representam certeza de que os impactos econômicos e ambientais ocorrerão na escala projetada, pois a Cepal trabalha com uma hipótese de intensidade extrema.
A função dessas estimativas é mostrar como perdas podem se espalhar entre diferentes setores caso o fenômeno alcance grande força e encontre sistemas pouco preparados para absorver seus efeitos.
Entre as medidas recomendadas aparecem fundos destinados a emergências climáticas, infraestrutura mais resistente, sistemas de alerta e redes de proteção para famílias com menor capacidade de enfrentar perdas de renda.
A Cepal também defende maior diversidade na matriz energética, integração elétrica entre países, planejamento de estoques para secas e ações voltadas à redução do consumo desnecessário de eletricidade.
A lógica dessas medidas está na tentativa de reduzir a transmissão do choque ambiental para preços, renda, produção e serviços essenciais antes que os danos assumam maior escala.
Para a Cepal, investimentos feitos de forma preventiva tendem a exigir menos recursos do que respostas adotadas somente após perdas climáticas, econômicas e sociais já consolidadas.
*Com informações g1
