O risco hídrico já provoca perdas de aproximadamente US$ 1,4 bilhão entre as empresas analisadas, enquanto muitas ainda não possuem processos estruturados para administrar essa exposição.
A disponibilidade de água começa a ocupar uma posição mais relevante nas decisões empresariais sobre produção, fornecedores, infraestrutura e expansão, segundo análise do CDP baseada em informações de mais de 6.500 companhias. As empresas estimam aproximadamente US$ 397 bilhões em impactos financeiros futuros relacionados ao recurso, cenário que amplia a importância da gestão hídrica para atividades industriais e cadeias produtivas.
Água ganha peso nas decisões industriais
A escolha de novas áreas para fábricas, fornecedores ou estruturas produtivas passa a exigir atenção às condições hídricas existentes em cada território, sobretudo quando a operação depende de acesso contínuo ao recurso.
Para o CDP, essa característica transforma a água em um insumo econômico estratégico e amplia sua influência sobre decisões antes concentradas principalmente em custos, logística ou disponibilidade de infraestrutura.
Essa preocupação também alcança estratégias de reshoring, nearshoring e diversificação das cadeias, adotadas por empresas que procuram reorganizar suas redes internacionais de produção e fornecimento.
Uma mudança destinada a reduzir determinada vulnerabilidade pode criar outro problema caso a nova região tenha pouca disponibilidade de água ou dificuldades para administrar o recurso.
Parte relevante dessa exposição permanece fora das instalações diretamente administradas pelas companhias, o que dificulta a identificação prévia dos pontos mais vulneráveis da produção.
Cerca de US$ 45 bilhões dos impactos futuros estimados estão associados às etapas anteriores das cadeias de suprimentos, inclusive em áreas com estresse hídrico e estruturas frágeis de gestão.
Esse tipo de dependência também ajuda a explicar por que interrupções relacionadas à água podem atingir empresas mesmo quando suas principais unidades não enfrentam escassez direta.
Problemas em fornecedores, rotas comerciais ou regiões responsáveis por insumos importantes podem limitar a continuidade da produção em outros pontos da cadeia.
Empresas ainda conhecem pouco da própria exposição
Apesar do volume financeiro associado aos riscos futuros, apenas cerca de 20% das companhias analisadas conseguiram atribuir valores aos possíveis impactos relacionados à água.
Mais de um terço também não possui um processo estruturado para identificar e administrar vulnerabilidades hídricas dentro das operações e das cadeias produtivas.
As perdas já registradas alcançam aproximadamente US$ 1,4 bilhão, o que mostra que parte desses riscos deixou de representar apenas uma preocupação de longo prazo.
Secas, interrupções de rotas comerciais, exigências regulatórias e investimentos adicionais em infraestrutura aparecem entre os fatores considerados pelas empresas nas avaliações apresentadas ao CDP.
A expansão da inteligência artificial acrescenta outra dimensão a essa discussão por causa do crescimento dos data centers e da necessidade de sistemas capazes de controlar a temperatura dos equipamentos.
Operadores que reduzirem a dependência de tecnologias de resfriamento intensivas em água podem conquistar vantagem em regiões onde a disponibilidade hídrica representa uma restrição importante.
O tema também aparece com maior frequência nas próprias divulgações corporativas, nas quais o CDP identificou mais de 7 mil referências que relacionam água a resiliência, competitividade, crescimento e desempenho financeiro.
Essa associação reforça a percepção de que o recurso deixou de permanecer restrito às políticas ambientais e passou a influenciar discussões econômicas mais amplas.
Oportunidades podem alcançar US$ 925 bilhões
As companhias também identificam possibilidades econômicas relevantes em iniciativas relacionadas à água, com aproximadamente US$ 35 bilhões já associados a oportunidades de importância financeira ou estratégica.
Para os próximos anos, o potencial informado pelas empresas pode chegar a cerca de US$ 925 bilhões, valor que revela uma segunda dimensão do tema além dos prejuízos projetados.
Empresas de setores com elevada dependência hídrica podem melhorar sua posição competitiva ao reduzir vulnerabilidades e demonstrar maior capacidade de adaptação em mercados sujeitos à escassez.
Segundo o CDP, compreender essas dependências e investir em resiliência também pode influenciar a atração de capital, a manutenção das atividades e as possibilidades de crescimento.
O setor financeiro já dedica maior atenção ao assunto, embora a avaliação ainda não alcance todas as instituições e carteiras analisadas pelo levantamento.
Em 2025, apenas 54% das instituições financeiras examinavam a exposição de seus portfólios a riscos e oportunidades relacionados à água.
O CDP também considera que o risco hídrico ainda não aparece integralmente nos preços e nas avaliações dos mercados financeiros.
Nesse cenário, a segurança no acesso à água tende a ganhar importância na definição dos locais capazes de receber novos investimentos, infraestrutura e atividades industriais.
