As unidades de conservação também apresentam diferenças expressivas na perda de vegetação, com áreas protegidas da Amazônia muito menos afetadas do que regiões situadas fora desses limites.
Uma parcela relevante do carbono preservado pelo Brasil permanece concentrada em territórios protegidos que funcionam como barreiras contra a perda de vegetação e a liberação de gases de efeito estufa. Um levantamento do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), solicitado pelo Observatório do Clima, calcula que as unidades de conservação terrestres armazenam 19,4 gigatoneladas de carbono.
Áreas protegidas concentram reserva estratégica de carbono
As unidades de conservação brasileiras mantêm uma reserva estimada em 19,4 gigatoneladas de carbono, segundo levantamento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia a pedido do Observatório do Clima.
Quando esse volume é convertido para dióxido de carbono, a quantidade corresponde aproximadamente ao que o Brasil liberaria durante 33 anos caso mantivesse o ritmo nacional registrado em 2024.
Naquele ano, as emissões brasileiras de gases de efeito estufa alcançaram 2,145 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente, referência utilizada para dimensionar a importância climática desse estoque.
A pesquisa considerou unidades terrestres pertencentes às diferentes categorias do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, além de informações recentes sobre perda de vegetação nos principais biomas brasileiros.
Dados históricos reforçam a função dessas áreas contra a expansão do desmatamento, pois unidades protegidas da Amazônia avaliadas por pesquisadores perderam aproximadamente 6,5% de sua vegetação nativa até 2022.
Nas regiões situadas fora dessas áreas, a redução da cobertura vegetal alcançou pelo menos 30% no mesmo recorte, diferença que evidencia a relevância da proteção territorial para conservar carbono.
Para calcular os estoques atuais, a análise combinou informações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com bases do Ministério do Meio Ambiente e registros de desmatamento produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Jamanxim exemplifica impacto da perda de vegetação
A Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, aparece entre os casos que ilustram como a retirada de cobertura nativa reduz progressivamente a quantidade de carbono preservada dentro de territórios protegidos.
Quando a unidade foi criada, em 2006, sua vegetação mantinha aproximadamente 184 milhões de toneladas de carbono, enquanto a estimativa referente a 2025 apontou cerca de 153 milhões.
A diferença representa perda aproximada de 16,54% do estoque existente no momento da criação, resultado que colocou Jamanxim entre as unidades federais com maiores reduções registradas.
Dentro do conjunto completo de áreas integrantes do sistema nacional, a floresta paraense ocupa a décima posição entre aquelas que apresentaram as maiores perdas de carbono.
Uma análise técnica citada no levantamento identificou 86,6 mil hectares desmatados e ocupados de forma ilegal após a criação da unidade, apesar das regras estabelecidas para sua conservação.
Desse total, mais de 36 mil hectares perderam cobertura vegetal entre 2018 e 2025, período que respondeu por parcela relevante da transformação territorial registrada na área.
Mudanças legais elevam preocupação climática
O levantamento ganha relevância diante de propostas legislativas destinadas a alterar limites ou categorias de unidades de conservação, decisões capazes de reduzir o grau de proteção aplicado atualmente a determinados territórios.
Entre os casos avaliados aparecem áreas de Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, além de Jamanxim, que recentemente teve 40% de sua extensão reclassificada para Área de Proteção Ambiental.
O risco ganha dimensão nacional porque o carbono preservado nessas áreas permanece armazenado principalmente na vegetação e nos ecossistemas, enquanto sua perda pode transferir parte desse conteúdo para a atmosfera.
A discussão sobre o futuro dessas áreas, portanto, envolve não apenas a destinação territorial de parcelas do país, mas também a preservação de uma reserva de carbono equivalente a décadas das atuais emissões brasileiras.
