Saúde, Segurança e Meio Ambiente

Rio Tietê tem contaminação total por microplásticos e agrotóxicos

Uma expedição revelou que o Rio Tietê está totalmente contaminado por microplásticos, agrotóxicos e fármacos.

A contaminação do Rio Tietê atingiu um nível que evidencia a sobreposição de diferentes problemas ambientais ao longo de sua bacia, com impactos que ultrapassam o esgoto urbano tradicionalmente associado ao curso d’água. O levantamento da SOS Mata Atlântica identificou resíduos de origem urbana, agrícola, industrial e doméstica, o que reforça a necessidade de ações integradas em saneamento, fiscalização ambiental, controle de químicos e monitoramento contínuo da qualidade da água.

Microplásticos aparecem em todo o Tietê

A expedição da SOS Mata Atlântica identificou microplásticos nos 14 pontos analisados ao longo do Rio Tietê, sinal de que esse tipo de poluição já aparece de forma ampla na bacia.

As concentrações variaram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico, diferença que mostra a influência da ocupação urbana, das atividades econômicas e da dinâmica de cada trecho do rio.

Entre os resíduos encontrados, as fibras tiveram maior presença, o que indica relação com efluentes domésticos, despejos industriais, lavagem de tecidos, drenagem urbana e outros fluxos ligados às cidades.

Os reservatórios concentraram parte mais crítica do problema, especialmente por apresentarem menor circulação da água e maior capacidade de reter partículas que chegam de diferentes áreas da bacia.

No reservatório de Promissão, a quantidade de microplásticos chegou a ser até 17 vezes maior que a registrada em trechos de correnteza, segundo os dados levantados na expedição.

Esse resultado mostra que áreas represadas podem atuar como pontos de acúmulo de poluentes, com retenção de resíduos que não seguem facilmente pelo curso natural do rio.

Água tem 25 tipos de agrotóxicos

A análise da SOS Mata Atlântica também encontrou 25 tipos de agrotóxicos na água do Rio Tietê, evidenciando a pressão exercida pelo uso de defensivos agrícolas em áreas próximas à bacia.

Entre as substâncias detectadas está a atrazina, herbicida proibido na União Europeia, mas ainda utilizado no Brasil em diferentes sistemas de produção agrícola.

A presença desses compostos tem relação com lavouras de cana-de-açúcar, soja e citros, culturas que ocupam áreas relevantes em regiões ligadas ao Médio e Baixo Tietê.

Resíduos químicos usados no campo podem chegar ao rio após chuvas, irrigação e drenagem do solo, principalmente quando faltam barreiras ambientais capazes de conter o escoamento.

Esse cenário mostra que a contaminação do Tietê não depende apenas da poluição urbana, pois atividades agrícolas também contribuem para a degradação da qualidade da água.

A soma entre defensivos agrícolas, efluentes domésticos e resíduos industriais amplia a complexidade do problema, exigindo ações integradas de saneamento, fiscalização e manejo rural.

Fármacos reforçam alerta ambiental

A expedição também detectou 16 substâncias associadas ao consumo humano, entre elas medicamentos como carbamazepina, diclofenaco e losartana, além de cocaína e seu metabólito, a benzoilecgonina.

A presença desses compostos indica que resíduos eliminados pela população chegam ao rio, principalmente quando o tratamento de esgoto não remove totalmente substâncias químicas de uso cotidiano.

A cafeína apareceu em todos os pontos analisados e funciona como um marcador da influência do esgoto doméstico sobre a qualidade da água ao longo da bacia.

Esses dados mostram que o Tietê recebe vestígios de medicamentos, estimulantes e drogas ilícitas, além de resíduos industriais, agrícolas e urbanos já identificados na expedição.

A permanência dessas substâncias pode afetar organismos aquáticos, alterar processos biológicos e ampliar a necessidade de estudos sobre riscos ambientais em longo prazo.

O monitoramento regular é essencial para identificar mudanças na qualidade da água, localizar fontes de contaminação e orientar políticas públicas de recuperação do rio.

Gabriele Noda

Colunista no segmento Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA) | Gabriele Noda é Supervisora de Customer Success e possui mais de 8 anos de experiência no mercado industrial, o que a capacita a traduzir dados científicos em análises acessíveis sobre saúde, segurança e meio ambiente.

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