Comércio de produtos falsificados movimenta US$ 467 bilhões no mundo
Produtos falsificados deixaram de se concentrar principalmente em roupas, calçados e acessórios e passaram a alcançar categorias com impacto direto sobre segurança e saúde.
A falsificação de mercadorias alcançou proporções bilionárias em 2021, quando o fluxo global dessas operações foi estimado em US$ 467 bilhões. A informação consta no “Mapeamento do Comércio Global de Produtos Falsificados 2025: Tendências Globais e Desafios de Fiscalização”, da OCDE e do EUIPO, que também identifica mudanças relevantes na logística e na variedade dos itens comercializados.
Redes ilegais espalham operações por diferentes países
A falsificação internacional deixou de depender de grandes carregamentos concentrados em poucos corredores comerciais e passou a operar por estruturas fragmentadas, com etapas distribuídas entre diversos territórios.
Essa configuração dificulta a identificação das cadeias completas, pois produção, transporte, montagem, armazenagem e venda podem ocorrer em países distintos antes que a mercadoria alcance o consumidor.
Parte dessas operações utiliza embalagens, peças ou componentes enviados separadamente, o que permite concluir o produto perto do mercado de destino e reduz a exposição durante inspeções aduaneiras.
Rotas marítimas, vias navegáveis, serviços postais e empresas de logística passaram a compor uma rede mais flexível, capaz de alterar trajetos conforme mudanças na fiscalização internacional.
A China aparece como principal origem identificada nas apreensões registradas em 2021, com participação próxima de 45% do total associado às mercadorias falsificadas naquele período.
Outros países da Ásia, além de territórios do Oriente Médio e da América Latina, também aparecem como pontos relevantes dentro das estruturas usadas por esses grupos.
Pequenos volumes ganharam importância especial nesse cenário, uma vez que encomendas postais e pacotes de menor porte corresponderam a aproximadamente 65% das apreensões consideradas pelo levantamento.
A pulverização das cargas reduz a dependência de grandes lotes e permite distribuir o risco entre milhares de remessas destinadas a compradores localizados em mercados diferentes.
Falsificação ultrapassa moda e alcança produtos sensíveis
Apesar da transformação das estratégias comerciais, roupas, calçados e artigos de couro ainda ocupam posição central entre as mercadorias interceptadas pelas autoridades internacionais.
Esses três grupos representaram, juntos, 62% dos produtos falsificados apreendidos, proporção que confirma a forte presença histórica desse mercado dentro do setor de moda.
O problema, entretanto, passou a atingir categorias cujo impacto não se limita à concorrência desleal ou às perdas de propriedade intelectual das empresas originais.
Medicamentos, cosméticos, alimentos, brinquedos e componentes automotivos aparecem entre os exemplos mais sensíveis devido às consequências que falhas, ingredientes inadequados ou materiais inferiores podem causar.
Essa expansão amplia o alcance econômico e social da falsificação, pois insere produtos de procedência desconhecida em áreas diretamente relacionadas à saúde, mobilidade e segurança cotidiana.
Nesse contexto, o consumidor deixa de enfrentar apenas o risco de adquirir uma imitação e passa a ficar exposto a mercadorias sem os controles exigidos dos fabricantes regulares.
A dimensão financeira desse comércio ajuda a demonstrar a escala alcançada pelas redes ilegais, já que OCDE e EUIPO estimaram um fluxo próximo de US$ 467 bilhões em 2021.
Embora esse valor corresponda ao último período com consolidação financeira disponível no estudo, os fatores estruturais associados ao mercado permanecem presentes nas cadeias comerciais atuais.
Comércio digital acelera circulação e exige resposta conjunta
A expansão das vendas pela internet acrescentou velocidade ao mercado de falsificações, porque novas cópias podem chegar ao público pouco tempo depois da popularização de determinados produtos.
Canais digitais também facilitam o contato direto entre vendedores e consumidores, além de favorecer operações comerciais dispersas e menos dependentes de pontos físicos tradicionais.
Esse ambiente combina bem com o modelo de pequenas encomendas, pois permite transformar uma operação internacional de grande escala em milhares de pedidos individuais com destinos diferentes.
Para os órgãos de controle, a quantidade elevada de volumes reduzidos amplia a dificuldade de selecionar cargas suspeitas sem comprometer o funcionamento regular das redes postais e logísticas.
A resposta proposta pela OCDE e pelo EUIPO depende de maior coordenação entre alfândegas, polícias, unidades de inteligência financeira e instituições responsáveis por fiscalizar mercados e fluxos comerciais.
O objetivo consiste em acelerar a troca de informações capazes de revelar conexões entre empresas, rotas, pagamentos, intermediários e destinos utilizados pelas organizações ilegais.
Empresas de transporte, operadores logísticos, serviços postais, intermediários comerciais e administrações de zonas francas também ocupam posição relevante nessa estratégia, devido ao contato direto com etapas decisivas da circulação.
Como as redes de falsificação aproveitam fronteiras, diferentes modais e estruturas empresariais para dispersar suas atividades, ações isoladas tendem a oferecer resultados mais limitados diante de operações transnacionais.
Fonte: OECD


