Saúde, Segurança e Meio Ambiente

Carvão vegetal paraguaio expõe brechas ambientais no mercado britânico

Investigação da Global Witness mostra como diferenças entre regras do Reino Unido e da União Europeia podem alterar o tratamento comercial de produtos ligados à conversão florestal.

A presença de carvão vegetal paraguaio em grandes redes britânicas colocou sob escrutínio uma diferença importante entre exigências ambientais aplicadas no Reino Unido e aquelas previstas pela União Europeia. O caso envolve fornecedores ligados ao Gran Chaco, região submetida a forte avanço agropecuário, e ganha relevância justamente quando o Paraguai busca ampliar sua integração comercial com o mercado europeu.

Regulação britânica deixa brechas para desmatamento

As regras vigentes no Reino Unido não alcançam o carvão vegetal com a mesma abrangência prevista para outras mercadorias associadas à perda de florestas.

Além disso, a legislação britânica concentra parte de seus controles em situações nas quais a supressão vegetal contraria as normas do país produtor.

Essa diferença cria uma situação na qual madeira retirada de uma área legalmente convertida no Paraguai pode chegar ao mercado britânico sem necessariamente violar a legislação ambiental aplicada às importações.

O ponto central da controvérsia, portanto, não está apenas na origem geográfica do produto, mas no critério usado para definir quais cadeias comerciais são aceitáveis.

Na União Europeia, a regra segue direção mais restritiva ao considerar a própria existência de desmatamento posterior à data de referência estabelecida pelo bloco, independentemente da autorização local.

As principais obrigações entram em vigor a partir de 30 de dezembro de 2026 para empresas abrangidas pela primeira etapa do regulamento.

Essa mudança aumenta a importância da rastreabilidade para países exportadores que pretendem ampliar negócios com compradores europeus, especialmente em cadeias ligadas à madeira e à agropecuária.

Para o Paraguai, o tema também se conecta às oportunidades comerciais associadas à aproximação entre Mercosul e União Europeia, ao mesmo tempo que organizações ambientais pressionam por controles mais rígidos.

Investigação rastreia carvão até fornecedores paraguaios

Foi nesse contexto que a Global Witness examinou a origem de carvão comercializado pela Big K, marca encontrada em redes britânicas como B&Q e Waitrose.

A organização identificou a empresa florestal Taruma como um dos principais elos paraguaios responsáveis pelo abastecimento internacional da marca.

O cruzamento de informações comerciais com imagens de satélite levou a investigação até propriedades que forneceram madeira para a empresa paraguaia em diferentes momentos.

Nessas áreas, a organização calculou uma perda superior a 28 mil hectares de cobertura florestal desde 2012, dimensão que chamou atenção para a transformação territorial do Gran Chaco.

Outro fornecedor anteriormente relacionado à Big K, a Paben SA, apareceu na investigação por causa de uma propriedade onde cerca de 2,7 mil hectares de vegetação desapareceram desde 2021.

Esses números não significam, por si só, que as empresas citadas tenham executado diretamente a retirada da floresta ou praticado alguma atividade ilegal.

A preocupação ambiental ganha peso porque o Gran Chaco representa a segunda maior formação florestal da América do Sul, atrás apenas da Amazônia, com presença em quatro países.

No Paraguai, a expansão da pecuária e de outras atividades agropecuárias aparece entre os principais fatores associados à rápida transformação dessa paisagem.

Empresas defendem regularidade da cadeia

A Taruma rejeitou qualquer acusação de irregularidade e afirmou que não realiza diretamente a supressão florestal nem possui autorizações destinadas a esse tipo de atividade.

Segundo a empresa, a matéria-prima adquirida provém de propriedades com documentação ambiental compatível e passa por verificações antes de entrar em sua cadeia comercial.

A própria Global Witness também não classificou como ilegal o desmatamento identificado nas áreas analisadas, diferença que modifica o centro da discussão apresentada pela investigação.

A organização questiona se a conformidade com normas locais oferece proteção suficiente para uma região submetida a taxas elevadas de perda de cobertura vegetal.

A Waitrose, por sua vez, declarou que o carvão vendido em suas lojas atende aos padrões de certificação do Forest Stewardship Council, conhecido pela sigla FSC.

Esse tipo de selo procura estabelecer critérios para origem e manejo florestal, mas não elimina o debate sobre quais parâmetros regulatórios devem prevalecer nas cadeias internacionais.

O episódio mostra como um produto relativamente simples pode envolver critérios ambientais distintos entre mercados que recebem mercadorias provenientes do mesmo território.

Para exportadores, varejistas e fornecedores, essa diferença tende a elevar a importância de comprovar não apenas a legalidade da produção, mas também a condição ambiental das áreas de origem.

*Com informações Reuters

Gabriele Noda

Colunista no segmento Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA) | Gabriele Noda é Supervisora de Customer Success e possui mais de 8 anos de experiência no mercado industrial, o que a capacita a traduzir dados científicos em análises acessíveis sobre saúde, segurança e meio ambiente.

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