Desastre no Nepal reforça alerta sobre montanhas mais instáveis
Desastre no Nepal e Tibete reforça alertas sobre geleiras, permafrost e encostas cada vez mais vulneráveis às mudanças do clima
O recente desastre registrado entre Nepal e Tibete reacendeu a preocupação científica com a estabilidade de regiões montanhosas submetidas ao avanço do aquecimento global. Evidências associadas ao episódio indicam que o colapso de uma geleira provocou uma grande inundação, em um contexto marcado por temperaturas elevadas e condições meteorológicas capazes de ampliar a vulnerabilidade do terreno.
Calor enfraquece estruturas naturais das montanhas
Em áreas de grande altitude, o gelo acumulado entre fissuras pode exercer uma função importante na sustentação de blocos rochosos e de partes inteiras das encostas.
Quando esse material perde volume por causa do aumento das temperaturas, a estrutura natural que mantém determinadas formações unidas pode se tornar menos resistente.
O cenário observado antes do episódio entre Nepal e Tibete chamou atenção porque temperaturas excepcionalmente altas antecederam o desastre e podem ter acelerado a perda de gelo nas fraturas da montanha.
A chegada das monções acrescentou outro fator de pressão, com rios mais cheios e terrenos saturados por maiores volumes de água.
Essa combinação pode favorecer diferentes tipos de eventos extremos, desde rupturas de geleiras até deslocamentos de rochas e grandes massas de neve ou solo.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas já aponta que o aumento da temperatura amplia a exposição de regiões montanhosas a avalanches, enchentes e deslizamentos.
Outro processo reforça essa transformação ao longo do tempo, porque a redução da cobertura branca expõe superfícies que retêm uma parcela maior da energia solar.
Com menor quantidade de neve e gelo para refletir a radiação, certas áreas podem absorver mais calor e acelerar mudanças já em curso no ambiente local.
Recuo das geleiras cria novos riscos
Os sinais de transformação aparecem também em levantamentos de longo prazo realizados no próprio Himalaia, onde cientistas acompanham mudanças expressivas na cobertura glacial.
Na região nepalesa de Langtang, a velocidade de perda das geleiras cresceu mais de quatro vezes desde 1964, segundo o estudo publicado na ScienceDirect.
A retração do gelo pode ainda favorecer a formação e o crescimento de lagos glaciais, que acumulam grandes volumes de água em áreas normalmente cercadas por barreiras naturais frágeis.
Uma eventual ruptura dessas estruturas pode liberar rapidamente o conteúdo represado e atingir comunidades localizadas em vales e regiões mais baixas.
Esse tipo de ameaça não se limita ao Himalaia, pois formações semelhantes existem em cadeias como Alpes, Andes e Cáucaso, além de outras áreas com geleiras ou solos permanentemente congelados.
A elevação persistente das temperaturas pode alterar a estabilidade desses ambientes e ampliar a necessidade de monitoramento em diferentes continentes.
Mudança também ameaça o abastecimento de água
As consequências ultrapassam os riscos imediatos de desastres, porque muitas populações dependem do gelo das montanhas para sustentar rios durante períodos de menor precipitação.
Com o recuo prolongado das geleiras, a quantidade de água disponível ao longo do ano pode sofrer alterações relevantes para comunidades, agricultura e outras atividades econômicas.
O mesmo processo que inicialmente pode elevar volumes de degelo tende a reduzir essa contribuição no futuro, conforme as reservas congeladas perdem extensão e espessura.
Dessa forma, uma mudança física nas montanhas pode produzir efeitos muito além das áreas de maior altitude e alcançar regiões densamente povoadas situadas rio abaixo.
Diante desse cenário, pesquisadores defendem maior investimento em sistemas de alerta, acompanhamento das geleiras e preparação das comunidades para eventos de resposta rápida.
A expectativa de mais avalanches, deslizamentos e enchentes torna a antecipação dos riscos uma ferramenta cada vez mais importante para reduzir perdas humanas e materiais.



