Projeto transforma água poluída em recurso para irrigação na África do Sul
O tratamento da água poluída utiliza pedras, areia e biochar para reduzir resíduos químicos, farmacêuticos e outros poluentes presentes no rio.
Uma comunidade da África do Sul encontrou na água de um rio severamente contaminado uma alternativa para enfrentar dois problemas que avançam de forma paralela: escassez hídrica e dificuldade de acesso a alimentos. Desenvolvido por pesquisadores da University of Cape Town, o projeto recupera milhares de litros diariamente e direciona parte desse volume para hortas locais, sem recorrer a produtos químicos no processo.
Água poluída ganha nova função em comunidade sul-africana
A falta de saneamento em Langrug criou um problema que ultrapassa a poluição ambiental, pois o crescimento acelerado da comunidade também elevou a necessidade de água para atividades essenciais.
A população local saltou de aproximadamente três mil para mais de 26 mil habitantes desde 2006, enquanto a infraestrutura disponível não acompanhou a mesma velocidade de expansão.
Diante desse desequilíbrio, pesquisadores da University of Cape Town encontraram no próprio rio contaminado uma possibilidade de ampliar a oferta hídrica destinada à produção local de alimentos.
A iniciativa consegue recuperar diariamente cerca de 36 mil litros retirados do Stiebeuel, curso d’água afetado por esgoto, substâncias químicas e resíduos provenientes de medicamentos.
Depois do tratamento, aproximadamente três mil litros ficam disponíveis para hortas que produzem vegetais, enquanto a maior parcela retorna ao ambiente após passar pelo processo de descontaminação.
A água obtida não pode ser consumida diretamente pelas pessoas, mas alcançou neste ano condições adequadas para irrigação após sucessivos aperfeiçoamentos realizados desde a criação do projeto, em 2018.
Materiais simples formam barreiras contra contaminantes
Em vez de depender de produtos químicos, a tecnologia combina diferentes materiais naturais e aproveita uma instalação de tratamento de esgoto que estava fora de operação.
A primeira barreira utiliza pedras maiores para reter determinados resíduos presentes no fluxo, antes que a água avance pelas demais partes do sistema.
Outra etapa emprega biochar, material obtido após exposição da madeira a aproximadamente 800 °C, com capacidade para reter compostos associados a medicamentos, amônia e outros poluentes.
Pedras menores e areia completam o processo, enquanto o líquido percorre lentamente a estrutura durante cinco dias até alcançar o nível de qualidade obtido pelo projeto.
Painéis solares fornecem a energia necessária para transportar a água até as áreas de filtragem, o que permite operação independente da rede elétrica convencional.
Segundo os responsáveis pela iniciativa, o método retira aproximadamente 99% das substâncias tóxicas presentes na água processada, embora permaneçam restrições que impedem sua classificação como potável.
Escassez hídrica amplia importância da experiência
A utilidade do projeto ganha outra dimensão diante da vulnerabilidade climática do Cabo Ocidental, região que já enfrentou uma severa crise de abastecimento após um longo período de seca.
Em 2018, a redução dos reservatórios levou famílias a limitar o consumo e provocou impactos econômicos sobre a agricultura, com aproximadamente 31 mil trabalhadores rurais sem emprego.
Para os pesquisadores, experiências descentralizadas podem ganhar importância em comunidades menores que não possuem capacidade financeira ou infraestrutura suficiente para grandes instalações convencionais.
A proposta não pretende assumir o papel das estações utilizadas por cidades, mas oferece uma alternativa para recuperar recursos hídricos onde sistemas tradicionais não conseguem atender toda a população.
Com períodos secos mais prolongados entre os riscos climáticos previstos para a região, transformar água imprópria em recurso para agricultura pode ajudar comunidades a preservar sua produção alimentar diante de futuras crises.
Fonte: The Guardian


