A carne sustentável na Bolívia ganha relevância em um cenário de pressão sobre recursos naturais. A iniciativa busca transformar a pecuária em uma atividade mais responsável.
A carne sustentável na Bolívia está emergindo como uma resposta ao crescente desmatamento impulsionado pela expansão agrícola e pecuária. Com práticas que visam preservar as florestas e manter a produtividade, iniciativas locais estão mostrando que é possível equilibrar economia e meio ambiente. O país busca alternativas para combater os impactos ambientais enquanto atende à demanda internacional.
Impacto do desmatamento na pecuária
O desmatamento na Bolívia tem sido um problema crescente, impulsionado principalmente pela expansão agrícola e pecuária.
A conversão de florestas em pastagens e plantações tem contribuído significativamente para a perda de cobertura florestal no país.
Entre as principais causas do desmatamento estão as práticas de queimadas controladas, autorizadas em 2019, que facilitaram a expansão das atividades agropecuárias. Embora essas queimadas tenham sido posteriormente revogadas, o impacto ambiental já estava consolidado.
Os efeitos do desmatamento são amplos, afetando não apenas a biodiversidade, mas também alterando o clima local. A redução das florestas diminui a umidade do ar, essencial para a formação de chuvas, agravando as secas e aumentando as temperaturas na região.
Além disso, a demanda crescente por carne bovina, especialmente para exportação, tem pressionado ainda mais as áreas florestais.
Em 2022, a Bolívia foi o terceiro país do mundo em perda de florestas primárias, uma posição alarmante que reflete a necessidade urgente de práticas mais sustentáveis na pecuária.
Exportações de carne e desafios ambientais
As exportações de carne bovina da Bolívia têm atingido recordes nos últimos anos, com a China emergindo como o principal mercado consumidor.
Em 2019, após negociações diplomáticas, o país enviou seu primeiro carregamento de carne para a China, marcando um evento histórico para a indústria pecuária boliviana.
Entretanto, esse crescimento nas exportações está diretamente ligado ao aumento do desmatamento, especialmente na região de Santa Cruz, principal área produtora de carne para exportação.
A expansão das terras agrícolas para atender à demanda externa tem resultado na destruição de vastas áreas de floresta.
A política governamental, em certos momentos, incentivou essa expansão, permitindo queimadas controladas para abrir caminho para atividades agropecuárias.
Embora tais medidas tenham sido revogadas, o impacto ambiental persiste, colocando a Bolívia entre os líderes globais em perda de florestas.
Os desafios ambientais são significativos, com a necessidade de equilibrar o crescimento econômico proporcionado pelas exportações de carne e a conservação das florestas.
A busca por práticas pecuárias mais sustentáveis é crucial para mitigar os efeitos negativos sobre o meio ambiente e garantir um futuro mais equilibrado para o setor.
Métodos sustentáveis de criação de gado
Na Bolívia, alguns produtores estão adotando métodos sustentáveis de criação de gado para reduzir o impacto ambiental da pecuária. Essas práticas buscam manter a produtividade enquanto preservam as florestas e os ecossistemas locais.
Um exemplo é a fazenda Juan Deriba, onde a criação de gado é feita sem o uso de hormônios de crescimento e sem rações especiais.
Os animais são criados em pastagens rotativas, permitindo que a vegetação se regenere naturalmente, preservando áreas de floresta primária e secundária.
Além disso, iniciativas como a da organização Armonía estão desenvolvendo modelos de pecuária sustentável em reservas naturais.
Na Reserva Barba Azul, estratégias experimentais incluem o manejo rotativo do gado, que se alimenta de pasto nativo, e o uso racional do fogo, parte do ecossistema das pampas nativas.
Essas práticas não apenas ajudam a preservar o meio ambiente, mas também melhoram a produtividade. Por exemplo, a produção de bezerros em sistemas sustentáveis pode ser até 70% maior em comparação com fazendas tradicionais, mostrando que é possível aliar eficiência e sustentabilidade na pecuária.
Certificação de reservas de pecuária sustentável
A certificação de reservas de pecuária sustentável é uma estratégia emergente na Bolívia para diferenciar a carne produzida de maneira ambientalmente responsável.
Organizações como a Armonía estão na vanguarda desse movimento, promovendo práticas que minimizam o impacto ambiental da pecuária.
No departamento de Beni, a Armonía está desenvolvendo um modelo de rancho sustentável na Reserva Barba Azul. Essa reserva aplica técnicas de pecuária que respeitam o ecossistema local, como o manejo rotativo do gado e a preservação de áreas florestais.
A certificação busca garantir que a carne proveniente dessas áreas seja reconhecida por suas práticas sustentáveis, incentivando outros produtores a adotarem métodos semelhantes.
Isso não apenas ajuda a preservar o meio ambiente, mas também agrega valor ao produto final, atraindo consumidores conscientes.
Além disso, a certificação pode abrir novos mercados para a carne boliviana, especialmente em países que valorizam práticas agrícolas sustentáveis.
Ao promover a certificação, a Bolívia pode fortalecer sua posição no mercado global de carne, destacando-se como um exemplo de produção responsável e sustentável.
Regeneração de Áreas Desmatadas
A regeneração de áreas desmatadas é uma prioridade para organizações e produtores na Bolívia que buscam mitigar os danos ambientais causados pela expansão agropecuária.
Iniciativas como as da Fundação para a Conservação do Bosque Chiquitano (FCBC) estão liderando esforços para restaurar ecossistemas degradados.
Na região de Roboré, a FCBC implementa práticas de pecuária regenerativa que enfatizam a saúde biológica do solo.
Isso inclui evitar o uso de ferramentas mecanizadas, manter o solo coberto com vegetação, promover a diversificação de plantas e reduzir o uso de agroquímicos.
Para a pecuária, a técnica de Pastoreio Racional Voisin (PRV) é utilizada, subdividindo pastagens para permitir a rotação do gado e a regeneração natural do pasto. Essa abordagem reduz a necessidade de desmatamento adicional e melhora a produtividade do solo a longo prazo.
Essas práticas não apenas ajudam a restaurar áreas degradadas, mas também aumentam a produtividade e reduzem custos com pesticidas e suplementos.
A regeneração de áreas desmatadas é essencial para preservar a biodiversidade e garantir a sustentabilidade da produção agropecuária na Bolívia.
Fonte: El País
