“Veneno no seu Café” expõe os desafios da cadeia global do café diante do uso de substâncias químicas nas lavouras. O estudo aponta que a busca por produtividade ainda convive com riscos ambientais, sanitários e trabalhistas.
O café movimenta uma cadeia global que conecta milhões de trabalhadores rurais, grandes marcas e consumidores em diferentes países, mas um novo relatório aponta que parte desse mercado ainda depende de práticas agrícolas associadas a riscos ambientais e sanitários. A análise da Coffee Watch reúne estudos sobre o cultivo intensivo e mostra que o debate vai além da presença eventual de resíduos na bebida, envolvendo principalmente a exposição de trabalhadores a pesticidas perigosos, falhas de proteção no campo e substâncias vetadas em mercados mais rígidos.
Relatório alerta para resíduos de pesticidas no café
A análise “Poison in Your Coffee” (do português “Veneno no seu Café“), da Coffee Watch, aponta que a produção mundial de café ainda depende de um amplo conjunto de substâncias químicas usadas no controle de pragas e doenças nas lavouras.
O levantamento identificou 159 substâncias ativas aprovadas para uso na cafeicultura nos principais países estudados, revelando a dimensão da presença de pesticidas na cadeia produtiva.
Segundo a organização, essa dependência também chega ao consumo, já que vestígios de resíduos de pesticidas foram encontrados em cerca de uma em cada cinco xícaras de café consumidas.
A preocupação aumenta porque entre 59% e 60% dos pesticidas usados no café são proibidos na Europa, indicando diferenças importantes entre padrões regulatórios e práticas adotadas em países produtores.
O relatório também afirma que 14% dos pesticidas utilizados na produção cafeeira são classificados como prováveis ou comprovadamente cancerígenos, o que amplia o debate sobre riscos ambientais e sanitários.
Nesse contexto, a Coffee Watch defende maior controle sobre substâncias usadas nas lavouras e mais transparência sobre os resíduos que podem permanecer ao longo da cadeia do café.
Trabalhadores enfrentam exposição sem proteção adequada
A situação dos trabalhadores aparece como um dos pontos mais críticos do relatório, já que a produção de café envolve cerca de 25 milhões de produtores e 100 milhões de trabalhadores em diferentes países.
Muitos desses profissionais atuam diretamente na aplicação de pesticidas, no manejo das lavouras e na colheita, frequentemente em contextos marcados por baixa fiscalização e pouca assistência técnica.
Na República Dominicana, 87% dos produtores entrevistados disseram que não usam luvas ou máscaras durante a aplicação de pesticidas, segundo os dados reunidos pela Coffee Watch.
Na Índia, o cenário também preocupa, pois dois terços dos trabalhadores relataram não usar nenhum equipamento específico de proteção ao lidar com substâncias químicas nas lavouras.
Essa exposição direta aumenta a vulnerabilidade de pessoas que sustentam a produção global de café, especialmente quando faltam treinamento, equipamentos adequados e orientação sobre riscos à saúde.
Além dos efeitos imediatos, o contato frequente com pesticidas pode gerar preocupação sobre impactos de longo prazo, principalmente em comunidades agrícolas dependentes da cafeicultura para sobreviver.
Cadeia do café é pressionada por novas exigências
O estudo reforça que a discussão sobre pesticidas no café não envolve apenas o consumidor final, mas toda a estrutura produtiva que leva o produto até o mercado internacional.
Com resíduos encontrados no consumo e trabalhadores expostos durante a produção, a cadeia cafeeira passa a enfrentar pressão por práticas agrícolas mais seguras e regras mais rígidas.
A diferença entre substâncias permitidas em países produtores e pesticidas proibidos na Europa também pode ampliar questionamentos comerciais, especialmente em mercados que cobram rastreabilidade e padrões ambientais.
Para a Coffee Watch, o avanço da fiscalização, a redução gradual de substâncias perigosas e o incentivo a alternativas menos nocivas podem diminuir riscos sem comprometer a produção.
A análise também indica que empresas compradoras, governos e certificadoras terão papel importante na criação de exigências capazes de proteger trabalhadores, consumidores e ecossistemas agrícolas.
O desafio está em equilibrar produtividade, renda no campo e segurança, evitando que o custo da produção recaia sobre quem trabalha nas lavouras ou consome o café diariamente.
Fonte: RFI
