Economia e Negócios

Ata do Copom alerta para expansão do crédito direcionado

BC aponta diferença crescente entre linhas apoiadas por programas públicos e modalidades livres, ao mesmo tempo que identifica desaceleração mais clara na atividade econômica

A ata do Copom mostrou que o Banco Central vê uma diferença cada vez mais clara entre o comportamento do crédito direcionado e o das linhas livres. Enquanto programas públicos sustentam parte relevante das concessões com condições próprias, as modalidades mais expostas à Selic já perdem força e revelam com maior nitidez os efeitos da política monetária restritiva.

Crédito direcionado limita transmissão da Selic

Na avaliação do BC, o crédito direcionado preserva expansão porque várias dessas operações seguem regras específicas e não respondem com a mesma intensidade às mudanças da taxa básica.

Para pessoas físicas, o avanço aparece sobretudo no financiamento imobiliário, enquanto empresas contam com operações apoiadas por fundos garantidores e outras estruturas com participação pública.

Programas federais ligados à habitação e ao financiamento de veículos também ajudam a explicar por que esse segmento permanece mais resistente mesmo com juros básicos ainda elevados.

Esse comportamento reduz parte da transmissão da Selic para a economia, pois uma parcela dos tomadores continua a acessar recursos sob condições diferentes das observadas no mercado livre.

Nas linhas livres, o contraste já se tornou mais evidente, principalmente nos contratos de prazo mais longo, que reagem de forma mais direta ao custo do crédito.

Modalidades de prazo curto e operações emergenciais ainda registram expansão, mas o ritmo recente perdeu intensidade e reforça a percepção de esfriamento desse mercado.

Atividade mostra efeitos mais claros dos juros

A leitura sobre o crédito aparece em uma ata que detalhou o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14% para 13,75% ao ano.

O Copom identificou sinais mais consistentes de desaceleração na atividade econômica, especialmente em setores e componentes da demanda mais sensíveis às condições financeiras.

O crescimento de 0,5% do PIB no 2º trimestre reforçou essa avaliação, ao mesmo tempo que o mercado de trabalho ainda preserva características de forte ocupação.

Mesmo com desemprego historicamente baixo, a ocupação já apresenta perda de fôlego e os rendimentos médios mostram menor ritmo, embora ainda avancem acima da produtividade em termos reais.

Na inflação, tanto o índice cheio quanto medidas subjacentes perderam força e ficaram abaixo do teto da faixa de tolerância, embora ainda permaneçam acima do objetivo central de 3%.

Esse quadro aumentou a confiança do Banco Central na desaceleração econômica, mas ainda não foi suficiente para afastar a necessidade de juros em terreno restritivo.

Expansão direcionada pode exigir juros maiores

O Banco Central alertou que uma expansão prolongada do crédito direcionado pode elevar a taxa de juros neutra da economia e exigir uma política monetária mais restritiva para controlar os preços.

Na prática, esse cenário aumentaria o custo necessário em atividade econômica para levar a inflação de volta à meta, justamente porque parte do crédito responde menos às decisões sobre a Selic.

Por essa razão, a ata voltou a associar a eficácia da política monetária à disciplina fiscal, às reformas estruturais e à estabilização da dívida pública.

Para o primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante atual, a projeção oficial de inflação permaneceu em 3,2%, acima da meta de 3%, mas dentro da faixa de tolerância entre 1,5% e 4,5%.

O cenário de referência também considera a trajetória indicada pelo Focus, com Selic de 13,75% no fim de 2026 e 12% no encerramento de 2027.

Apesar da melhora recente dos indicadores domésticos, o Copom ainda vê riscos nas expectativas de inflação, nas tensões geopolíticas, nas commodities e nas decisões monetárias de economias avançadas.

O comitê também indicou que choques iniciais de oferta não provocarão resposta automática, mas poderão exigir ação caso produzam efeitos persistentes sobre outros preços.

Com isso, o Banco Central deixou o ritmo dos próximos cortes em aberto e condicionou novas reduções à evolução da inflação, da atividade e do balanço de riscos.

Romário Martins

Colunista no segmento Economia e Negócios | Vice-presidente do Grupo Ideal Trends. Há mais de 19 anos, Romário tem ajudado empresas a alavancarem seu faturamento por meio da geração de demanda qualificada na web. Em sua trajetória, já ajudou a transforar o cenário de mais de 20.000 empresas.

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