Gás de xisto dos EUA abastece fertilizantes europeus e acende alerta ambiental
A produção de amônia nos EUA, utilizando gás de xisto, está abastecendo fábricas de fertilizantes na Europa, o que levanta preocupações ambientais. Apesar das promessas de sustentabilidade, a dependência de combustíveis fósseis desafia a produção limpa.
A produção de amônia nos EUA, utilizando gás de xisto, está abastecendo fábricas de fertilizantes na Europa. Investigação revela que, apesar das promessas de sustentabilidade, o uso de gás de xisto levanta preocupações ambientais significativas. Especialistas questionam a eficácia das alegações de produção limpa e destacam os desafios enfrentados pela indústria.
Produção de amônia nos EUA
A produção de amônia nos Estados Unidos, especialmente na cidade costeira de Freeport, Texas, tem ganhado destaque devido ao uso de gás de xisto.
Esta região abriga um dos maiores complexos petroquímicos do país, onde a amônia é fabricada a partir de um composto de nitrogênio e hidrogênio, essencial para fertilizantes usados em plantações industriais.
Grandes empresas químicas, como a Yara e a BASF, inauguraram uma fábrica em Freeport em 2018, prometendo uma produção de amônia mais “sustentável”.
A planta utiliza hidrogênio como subproduto de uma instalação próxima da Dow, que fabrica componentes para plásticos.
Essa abordagem visa reduzir a pegada de carbono da indústria de fertilizantes, mas a dependência do gás de xisto levanta questões sobre a real sustentabilidade do processo.
A investigação conduzida por DeSmog, Data Desk e o Guardian revelou que, apesar das promessas de sustentabilidade, a planta de Freeport depende de hidrogênio derivado do gás de xisto dos EUA.
Este combustível é um dos mais prejudiciais ao meio ambiente e à sociedade, o que contradiz as alegações de produção limpa e sustentável.
Impactos ambientais do gás de xisto
O uso de gás de xisto na produção de amônia levanta preocupações significativas sobre os impactos ambientais.
A extração de gás de xisto, através do fraturamento hidráulico, libera grandes volumes de metano, um potente gás de efeito estufa, além de poluentes tóxicos no ar e na água.
A prática do fracking é amplamente criticada por seu potencial de causar danos ambientais e sociais. A liberação de metano contribui para o aquecimento global, enquanto os produtos químicos utilizados no processo podem contaminar os lençóis freáticos, afetando comunidades locais e ecossistemas.
Especialistas alertam que, embora a reciclagem de hidrogênio na produção de amônia possa resultar em economia de energia, a dependência do gás de xisto não elimina a necessidade de combustíveis fósseis.
Isso significa que, indiretamente, a demanda por gás continua a crescer, perpetuando os riscos ambientais associados à sua extração e uso.
Além disso, a produção de amônia a partir de gás de xisto desafia as alegações de sustentabilidade feitas por empresas como a Yara.
A realidade é que, enquanto o uso de subprodutos pode ser mais eficiente, ele não é isento de impactos negativos, destacando a necessidade de soluções verdadeiramente limpas e sustentáveis para a indústria de fertilizantes.
Exportação para fábricas europeias
A amônia produzida na planta de Freeport, no Texas, é amplamente exportada para fábricas de fertilizantes na Europa.
Análises de dados alfandegários e de transporte mostram que cerca de um quarto da amônia produzida pela Yara em Freeport é enviada para fora dos Estados Unidos, com mais de 90% desse volume destinado ao mercado europeu.
Esses fertilizantes são essenciais para a agricultura em países como Irlanda, Reino Unido e Espanha, que dependem dessas importações para suas produções agrícolas.
Em 2023, a Irlanda recebeu cerca de 14% de suas importações de fertilizantes da planta de Freeport, enquanto o Reino Unido e a Espanha receberam 8% e 6%, respectivamente.
A exportação de amônia para a Europa destaca a interdependência das indústrias químicas globais e levanta questões sobre a sustentabilidade das práticas de produção e consumo.
Apesar das promessas de “fertilizantes limpos”, a realidade é que a produção de amônia ainda está fortemente ligada ao uso de combustíveis fósseis, como o gás de xisto, que são ambientalmente prejudiciais.
Essa dependência de amônia importada dos EUA também reflete a complexidade do mercado global de fertilizantes, onde as práticas de produção em um continente podem impactar significativamente o meio ambiente e a economia em outro.
Isso ressalta a necessidade de políticas mais eficazes e sustentáveis para reduzir as emissões e o impacto ambiental da produção de fertilizantes.
Desafios e controvérsias
A produção de amônia a partir do gás de xisto nos Estados Unidos e sua exportação para a Europa estão cercadas de desafios e controvérsias.
Um dos principais desafios é a alegação de sustentabilidade por parte das empresas envolvidas, como a Yara, que enfrenta críticas por suas práticas de produção.
Enquanto a Yara promove suas iniciativas de “fertilizantes verdes”, especialistas questionam a eficácia dessas soluções, apontando que o uso de gás de xisto contradiz as promessas de sustentabilidade.
A dependência de combustíveis fósseis para a produção de amônia levanta preocupações sobre as emissões de gases de efeito estufa e os impactos ambientais associados ao fracking.
Outra controvérsia envolve a exportação de amônia para a Europa, que, embora crucial para a agricultura, perpetua a dependência de práticas de produção ambientalmente prejudiciais.
A interdependência dos mercados globais de fertilizantes destaca a necessidade de políticas mais rigorosas para enfrentar os desafios ambientais e sociais associados ao uso de gás de xisto.
Além disso, a pressão para reduzir as emissões no setor de fertilizantes é crescente, mas as soluções propostas até agora não abordam o problema subjacente do uso excessivo de fertilizantes e suas consequências.
Isso gera um debate contínuo sobre a melhor forma de equilibrar a produção agrícola com a sustentabilidade ambiental, um desafio que requer inovação e colaboração internacional.
Fonte: The Guardian



