Formação profissional vira desafio para avanço da reindustrialização
O avanço da reindustrialização encontra um dos principais desafios na baixa presença de graduados em áreas STEM, que representaram apenas 15,6% dos bacharelados concluídos em 2023.
A reindustrialização brasileira depende de uma base profissional capaz de acompanhar setores mais tecnológicos, mas os indicadores reunidos pela CNI revelam obstáculos relevantes na formação disponível hoje. Para estudantes e trabalhadores, o debate ultrapassa a expansão da indústria e alcança diretamente as competências exigidas por atividades ligadas à inovação, digitalização e transição ambiental.
Carreiras tecnológicas ocupam parcela pequena da formação
A disponibilidade de profissionais em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática representa um dos pontos de atenção para setores que dependem de conhecimento técnico especializado.
Essas áreas, conhecidas pela sigla STEM, concentram competências associadas à inovação e à incorporação de tecnologias em diferentes etapas da atividade industrial.
Em 2023, somente 15,6% dos brasileiros que concluíram bacharelados receberam diplomas em cursos pertencentes a esse grupo de formações estratégicas.
O resultado colocou o Brasil na 47ª posição entre 48 países com informações disponíveis no levantamento elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
Para estudantes que avaliam futuras carreiras, essa baixa participação revela um espaço ainda restrito das formações científicas e tecnológicas dentro do ensino superior brasileiro.
Para a indústria, a quantidade de profissionais nessas áreas integra o debate sobre a capacidade do país de sustentar uma reindustrialização com maior conteúdo tecnológico.
Outro indicador importante aparece na preparação de professores responsáveis por disciplinas que formam parte da base científica dos estudantes antes do ensino superior.
Em 2010, as licenciaturas de Biologia, Computação, Física, Matemática e Química registraram aproximadamente 36 mil concluintes em todo o país.
Em 2024, o total dessas mesmas formações caiu para aproximadamente 28 mil profissionais, conforme os dados destacados pela Confederação Nacional da Indústria.
Dificuldades aparecem antes da escolha profissional
A preparação para carreiras técnicas e científicas também depende da aprendizagem construída durante a educação básica, especialmente em conhecimentos utilizados posteriormente em cursos especializados.
Os resultados do PISA 2022 mostram que uma parcela elevada dos estudantes brasileiros ainda não alcançou o nível mínimo de proficiência em diferentes áreas.
Em matemática, 73% dos participantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo estabelecido pela avaliação internacional aplicada a estudantes de diferentes países.
Em ciências, 55% dos alunos avaliados no Brasil também não alcançaram o patamar mínimo de proficiência definido pelo exame naquele ano.
Na leitura, metade dos estudantes brasileiros permaneceu abaixo do nível mínimo, percentual menor que o observado nas outras duas áreas avaliadas.
Para a CNI, a elevação da escolaridade observada nas últimas décadas não apresentou avanço proporcional nos resultados de aprendizagem e produtividade do trabalho.
Essa diferença integra as preocupações da entidade sobre a preparação de profissionais capazes de atuar em uma indústria com maior presença de tecnologia.
A produtividade brasileira corresponde a US$ 21,2 por hora trabalhada, com valor calculado a partir da metodologia de Paridade do Poder de Compra.
O indicador acrescenta uma dimensão econômica ao debate educacional, porque a CNI relaciona qualificação, produtividade e capacidade de inovação aos desafios da reindustrialização brasileira.
Qualificação entra na estratégia de reindustrialização
A transformação do setor industrial amplia a necessidade de formação profissional voltada para competências que atendam atividades mais complexas e novas exigências tecnológicas.
Nesse contexto, a CNI defende uma aproximação maior entre o ensino oferecido aos estudantes e as necessidades encontradas dentro do setor produtivo.
A expansão da educação profissional e tecnológica aparece entre as medidas propostas pela entidade para ampliar a preparação de jovens e trabalhadores interessados nessas carreiras.
O fortalecimento da formação docente também integra essa agenda, diante da importância dos professores para o desenvolvimento de competências científicas ao longo da trajetória escolar.
Digitalização aparece entre os conhecimentos considerados relevantes para profissionais que deverão atuar em uma indústria com maior presença de tecnologias e processos automatizados.
A bioeconomia representa outra frente destacada pela CNI, especialmente diante das mudanças produtivas associadas ao aproveitamento econômico de recursos biológicos e conhecimentos relacionados.
Eficiência energética também ocupa espaço entre as competências consideradas importantes para uma indústria que precisa elevar produtividade e adaptar processos às novas exigências econômicas.
A descarbonização completa esse conjunto de prioridades, em um momento no qual a transição ambiental amplia a necessidade de profissionais preparados para novas tecnologias industriais.
Para estudantes e trabalhadores, essas áreas ajudam a indicar quais qualificações podem ganhar relevância profissional conforme o país avance em sua estratégia de reindustrialização.
Para as empresas, a disponibilidade dessa mão de obra representa uma das condições necessárias para incorporar inovação e ampliar a capacidade produtiva em setores mais tecnológicos.



