Anthropic diz que Claude ajudou a descobrir novo sistema enzimático
A descoberta chamou atenção pela presença de repetições regulares de DNA que produzem pequenos RNAs e apresentam uma organização comparável à encontrada em sistemas CRISPR.
A Anthropic afirma ter identificado, com apoio do Claude e posterior validação experimental humana, um sistema enzimático até então não caracterizado em sequências genéticas de bacteriófagos. Batizada de “transcriptases reversas associadas a arranjos”, ou apenas “ARTs”, a estrutura combina uma enzima conhecida com elementos genéticos cuja organização ainda não havia sido reconhecida como parte de um mesmo mecanismo biológico.
ARTs revelam uma arquitetura genética incomum
O interesse científico pelas ARTs surgiu menos pela presença isolada da transcriptase reversa e mais pela forma como diferentes componentes aparecem organizados ao redor desse gene.
Próximo à enzima, os pesquisadores encontraram uma proteína acessória ainda sem função esclarecida e uma extensa região formada por repetições regulares que não codificam proteínas.
Essa disposição chamou atenção porque apresenta semelhanças estruturais com os arranjos encontrados nos sistemas CRISPR, embora ainda não exista evidência de que as ARTs exerçam funções equivalentes.
Experimentos iniciais mostraram que as sequências repetitivas produzem pequenos RNAs separados, característica que levanta a hipótese de algum grau de programação molecular dentro desse mecanismo.
A transcriptase reversa possui capacidade de transformar moléculas de RNA em DNA e já havia aparecido anteriormente em pesquisas genômicas, mas sem ligação reconhecida com essa arquitetura completa.
A descoberta, portanto, não consiste em encontrar uma enzima inteiramente desconhecida, mas em perceber que ela participa de uma combinação genética que havia passado despercebida.
Por enquanto, ainda não está claro qual papel as ARTs exercem dentro dos bacteriófagos ou das bactérias infectadas por esses vírus.
Sistemas moleculares com algumas características semelhantes podem participar de processos como cópia, inserção ou corte de material genético, mas os testes disponíveis ainda não permitem atribuir qualquer dessas funções às ARTs.
Essa incerteza é justamente uma das razões pelas quais o sistema desperta interesse, pois uma arquitetura organizada em torno de pequenos RNAs e uma enzima capaz de produzir DNA pode revelar um mecanismo biológico diferente dos já catalogados.
Os próximos experimentos deverão mostrar se essa estrutura possui alguma capacidade programável ou se desempenha uma função mais específica dentro da interação entre vírus e bactérias.
Claude reduziu uma busca massiva até poucos candidatos
O sistema apareceu durante uma análise em larga escala conduzida com agentes do Claude sobre grandes conjuntos de sequências genéticas, dentro de um programa da Anthropic dedicado à descoberta de proteínas e mecanismos biológicos pouco conhecidos.
A busca envolveu aproximadamente 950 agentes, consumiu cerca de 210 milhões de tokens e permaneceu ativa por aproximadamente 21 horas.
Em vez de partir de um único gene previamente selecionado, o processo examinou mais de 200 mil transcriptases reversas e procurou combinações genéticas que não correspondiam aos sistemas já conhecidos.
Dessa triagem surgiram aproximadamente 3.500 estruturas potenciais, posteriormente reduzidas a 20 candidatas consideradas suficientemente incomuns para uma investigação mais detalhada.
As ARTs apareceram nesse estágio após um dos agentes detectar repetições sucessivas de DNA muito próximas ao gene de uma transcriptase reversa.
A análise passou então a considerar quantidade, distância e disposição dessas repetições, além da relação entre a enzima, a proteína vizinha e outras estruturas descritas anteriormente na literatura científica.
O trabalho computacional não encerrou a descoberta, porque o candidato selecionado precisou passar por análise de pesquisadores e experimentos laboratoriais antes de receber maior atenção.
Esses testes confirmaram que os componentes formavam um sistema biológico ainda sem caracterização conhecida, resultado que levou o grupo a avançar para novas investigações sobre sua função.
A Anthropic divulgou os resultados em formato de preprint, o que significa que o trabalho ainda permanece em uma etapa científica anterior à consolidação completa das conclusões.
Os pesquisadores continuam os experimentos para compreender o papel das ARTs e determinar se a arquitetura identificada representa apenas uma curiosidade evolutiva ou uma ferramenta molecular com aplicações futuras.
O caso também mostra uma forma diferente de utilizar modelos de inteligência artificial na pesquisa biológica, com a IA responsável pela exploração inicial de um espaço genômico muito amplo e especialistas humanos encarregados da validação experimental.
Para a Anthropic, essa combinação pode acelerar a identificação de sistemas que permaneceriam ocultos em grandes bases de sequências, sem substituir a necessidade de testes laboratoriais para confirmar qualquer descoberta.



