Cases e Análises

Petróleo do Irã some do mercado e amplia disputa por oferta

Bloqueio reduz embarques iranianos, pressiona estoques e transfere o choque para refinarias chinesas, rotas comerciais e outros fornecedores internacionais.

A redução das exportações de petróleo do Irã começa a produzir consequências que ultrapassam a perda direta de receitas para Teerã, porque o país encontra dificuldades crescentes para retirar cargas do Golfo e precisa administrar volumes cada vez maiores dentro de sua própria estrutura de armazenamento. Esse bloqueio sobre a saída do petróleo iraniano cria uma sequência de efeitos que alcança primeiro seus principais compradores e, depois, amplia a competição por barris disponíveis em outras regiões.

Irã acumula petróleo sem conseguir exportar

O problema ganhou intensidade após o bloqueio estadunidense iniciado em 13 de abril, que passou a limitar tanto a saída de petroleiros carregados quanto a entrada de embarcações vazias destinadas aos terminais iranianos.

A consequência apareceu rapidamente em Kharg, principal ponto de exportação do país, onde os embarques caíram de aproximadamente 1,8 milhão de barris diários em março para apenas 260 mil em maio.

Uma autorização temporária permitiu alguma recuperação nos dois meses seguintes, mas o encerramento dessa flexibilização voltou a reduzir o fluxo para cerca de 250 mil barris por dia em agosto.

Em setembro, nenhum novo carregamento foi identificado no Golfo, o que aprofundou o represamento da produção iraniana e diminuiu ainda mais a oferta acessível aos compradores estrangeiros.

Parte desse petróleo ainda permanece armazenada em navios, embora o volume flutuante tenha caído para aproximadamente 86 milhões de barris, menor nível registrado desde janeiro de 2025.

Nos terminais terrestres, o país acumula perto de 70 milhões de barris, quantidade equivalente a aproximadamente 60% da capacidade disponível para armazenamento.

Esse quadro cria um problema adicional para Teerã, porque a continuidade das restrições pode transformar falta de espaço em necessidade de reduzir a própria extração.

O choque, portanto, deixa de afetar apenas a capacidade comercial do país e começa a ameaçar também o funcionamento de sua cadeia produtiva.

China sente o desaparecimento das cargas iranianas

A dependência chinesa ajuda a explicar por que a retração das exportações iranianas ganhou dimensão internacional, já que a China recebeu cerca de 1,4 milhão de barris por dia do Irã durante 2025.

Nos primeiros meses da guerra, essa relação ficou ainda mais importante porque navios iranianos continuaram a atravessar Ormuz em um momento no qual outras embarcações enfrentavam maiores limitações.

As compras chinesas chegaram a aproximadamente 1,76 milhão de barris diários em abril, mas esse volume começou a desaparecer à medida que novos carregamentos deixaram de chegar aos mercados asiáticos.

O impacto demorou a aparecer integralmente porque o Irã mantinha cerca de 160 milhões de barris em estoques flutuantes na região durante meados daquele mês.

Com a redução dessas reservas, as importações chinesas de petróleo iraniano caíram de 980 mil barris por dia em agosto para 475 mil em setembro. No final daquele mês, as chegadas praticamente cessaram, o que retirou das refinarias chinesas uma fonte que combinava disponibilidade elevada com preços tradicionalmente descontados.

As chamadas teapots de Shandong ficaram especialmente expostas porque construíram parte de sua competitividade sobre petróleo sancionado originário do Irã e da Rússia.

Sem o mesmo volume iraniano, essas empresas passaram a procurar cargas do Brasil, da Guiana, da África Ocidental e de outros produtores do Oriente Médio.

Qingdao mostra a dificuldade dessa substituição, pois o petróleo iraniano representava aproximadamente 40% dos 690 mil barris diários recebidos pelo porto em 2025.

Mesmo com maior presença de variedades brasileiras como Tupi e Búzios, além de cargas guianenses, o volume recebido caiu para cerca de 150 mil barris diários nos últimos três meses avaliados.

Em Dongying, onde petróleo russo e iraniano dominavam praticamente todo o suprimento, algumas refinarias tiveram de reduzir o processamento pela falta de matéria-prima suficiente.

A dificuldade ficou maior porque fretes marítimos atingiram níveis elevados e grandes petroleiros ficaram mais escassos, fatores que encarecem rotas alternativas mais longas.

Substituição aumenta disputa por outros barris

A Rússia oferece apenas uma solução parcial para essas refinarias, porque a competição por suas cargas também elevou os preços pagos pelos compradores chineses.

O petróleo ESPO chegou a carregar prêmio recorde de US$ 28 por barril sobre o Brent, enquanto o Urals também passou a negociar acima da referência internacional.

O governo chinês ampliou para 257 milhões de toneladas a cota anual destinada às empresas não estatais, mas essa autorização não cria automaticamente petróleo barato disponível no mercado.

A medida aumenta a capacidade legal de compra, enquanto o desafio econômico permanece concentrado em preço, frete, origem e disponibilidade efetiva das cargas.

Essa pressão pode ganhar força porque as importações marítimas chinesas subiram de 7,24 milhões de barris diários em agosto para 7,5 milhões em setembro.

O volume ainda está bastante abaixo dos 11,5 milhões registrados em fevereiro, o que deixa espaço para uma recuperação adicional caso a atividade das refinarias continue mais forte.

A China também reduziu suas reservas estratégicas de aproximadamente 1,25 bilhão de barris em abril para perto de 1,12 bilhão, outro fator que pode exigir novas compras no futuro.

Uma eventual recomposição dessas reservas acrescentaria demanda a um mercado que já precisa absorver a substituição parcial do petróleo iraniano.

Ormuz mantém risco maior para o mercado

A retirada das cargas iranianas representa apenas uma parte do problema, porque aproximadamente 13 milhões de barris por dia produzidos por outros países ainda atravessam o Estreito de Ormuz.

Esse fluxo permanece cerca de 5 milhões abaixo do nível anterior à crise, mas continua grande o suficiente para transformar qualquer nova interrupção em um choque de escala muito superior.

Para o Irã, a situação também cria uma pressão econômica particular, já que produtores vizinhos recuperaram parte de seus fluxos enquanto suas próprias exportações continuam severamente limitadas.

Caso esse desequilíbrio persista sem avanço político, Teerã pode encontrar maior incentivo econômico para voltar a restringir a passagem utilizada pelos demais exportadores da região.

Uma nova interrupção atingiria não apenas consumidores que perderam petróleo iraniano, mas também compradores dependentes dos milhões de barris de outros produtores que ainda cruzam diariamente a rota.

Nesse cenário, a crise deixaria de representar apenas a substituição de um fornecedor e passaria a ameaçar uma parcela muito maior da oferta mundial.

O encadeamento começa, portanto, dentro do próprio Irã, alcança refinarias chinesas que perderam uma fonte barata e termina em um mercado no qual compradores competem por alternativas mais caras.

Cada etapa adiciona custos, altera rotas comerciais e aumenta a sensibilidade dos preços internacionais a qualquer novo problema no Golfo.

Fonte: oilprice.com

Willian Souza

Colunista no segmento Cases e Análises | C.O.O. no Grupo Ideal Trends, com ampla experiência como líder de operações e gerente de projetos. Também possui vasta experiência em marketing digital, tecnologia, inovações, gerenciamento de equipes, análise estratégica de mercados e competitividade industrial.

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