Cases e Análises

Resíduos de coco viram biochar para uso agrícola no Rio Grande do Norte

O uso de resíduos de coco como matéria-prima para biochar conecta tratamento de biomassa e agricultura regenerativa em uma região marcada por desafios relacionados à disponibilidade hídrica.

Cascas descartadas pela indústria de água de coco passaram a abastecer uma nova atividade no Vale do Açu, onde a Charma transforma o resíduo em biochar para aplicações agrícolas no semiárido. O desenvolvimento do negócio recebeu apoio de programas do Sebrae-RN, que contribuíram para aproximar a empresa de produtores, fornecedores e oportunidades comerciais relacionadas ao reaproveitamento local dessa biomassa.

Resíduo entra em nova cadeia

A proposta da empresa parte da disponibilidade regional de cascas que deixam o processo industrial sem utilidade direta e passam a representar matéria-prima para outro segmento econômico.

Uma agroindústria de água de coco tornou-se a principal fornecedora do resíduo e também abriu áreas produtivas para avaliações do biochar em condições reais de cultivo.

Essa proximidade entre fornecedor, unidade de processamento e propriedades rurais ocupa papel importante no modelo, porque reduz deslocamentos e facilita o retorno do material transformado à própria agricultura.

Atualmente, a operação possui capacidade próxima de dez toneladas anuais e participa de 13 parcerias voltadas a testes, aplicações e desenvolvimento comercial.

A conversão da casca ocorre por pirólise, processo no qual a biomassa preparada recebe temperaturas elevadas sob disponibilidade reduzida de oxigênio até originar um material sólido rico em carbono.

Parte dos gases liberados nessa etapa pode fornecer energia ao próprio processo, característica que acrescenta outra forma de aproveitamento ao resíduo utilizado pela unidade.

Biochar atende desafios do semiárido

Uma das aplicações de maior interesse regional está relacionada à capacidade do biochar de favorecer a retenção de água e nutrientes no solo, característica relevante para áreas sujeitas a períodos prolongados de baixa disponibilidade hídrica.

O material também pode contribuir para características físicas e biológicas da terra quando seu uso ocorre em conjunto com práticas adequadas de manejo agrícola.

Coco, algodão e manga aparecem entre as culturas nas quais produtores utilizam ou avaliam o insumo em diferentes áreas do Rio Grande do Norte.

Mossoró, Touros e o próprio Vale do Açu estão entre as regiões onde existe interesse pelo produto e espaço para ampliar experiências no campo.

A empresa também mantém articulações com Embrapa, UFRN e Ufersa para avaliar como o biochar responde a diferentes solos, culturas e condições produtivas.

Essa etapa pode ajudar a definir aplicações mais adequadas antes de uma expansão significativa da capacidade industrial e da oferta comercial do produto.

Expansão prioriza polos produtores

A estratégia da Charma prevê consolidar primeiro sua atuação no Rio Grande do Norte antes de avançar para outras regiões com forte presença da indústria de água de coco.

O Ceará aparece como uma possibilidade posterior de expansão, devido à relevância de sua cadeia produtiva e à consequente geração de matéria-prima disponível.

A empresa calcula que aproximadamente 400 unidades produtoras de água de coco no país poderiam, no futuro, participar de estruturas semelhantes de aproveitamento.

O modelo proposto favorece instalações próximas dessas indústrias, para que as cascas recebam transformação local e retornem à agricultura sem depender de trajetos logísticos extensos.

Essa configuração transforma um problema de descarte em parte de uma cadeia econômica regional, na qual indústria e agricultura passam a compartilhar o mesmo fluxo de matéria-prima.

Para o agronegócio do semiárido, a iniciativa combina gestão de resíduos, desenvolvimento de bioinsumos e busca por alternativas capazes de melhorar o aproveitamento dos recursos disponíveis.

Fonte: Agência Sebrae

Willian Souza

Colunista no segmento Cases e Análises | C.O.O. no Grupo Ideal Trends, com ampla experiência como líder de operações e gerente de projetos. Também possui vasta experiência em marketing digital, tecnologia, inovações, gerenciamento de equipes, análise estratégica de mercados e competitividade industrial.

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